Amor na linha 203
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terça-feira, 22 de janeiro de 2002
Francelino FrançaReportagem Local 
Ela subiu no ônibus correndo e a bolsa estava aberta. Lembrou que o batom quebrado poderia sujar a carteira de trabalho. Lindamir iria dar baixa na carteira naquele dia. O patrão ficou irado porque ela tinha faltado sem avisar. Estava sem condições técnicas, pois na noite anterior amarrara um fogo no forró. Não parava em pé, então como iria passar aquela montanha de roupas
Entrou esbaforida na linha 203 e se decepcionou. Odair, o cobrador paquera de furinho no queixo, estava de folga. Quase perdeu o ônibus costurando o top vermelhinho, sua indumentária preferida. Barriga de fora era básico para Lindamir. O cobrador substituto não rendia nem um oi.
Mais um dia de ônibus apinhocado. O destino de quem tem 1,53 m é sofrer em coletivo. Numa curva na via expressa, o motorista fez uma barbeiragem. Tá carregando gado?, gritou uma voz potente. A alagoana de Arapiraca ficou acesa. Às vezes pensava o que estava fazendo nessa terra de gente com sotaque de gringo, tão longe de mainha. Com o baque do ônibus, a mão do rapaz apertou as mãos pequenas da diarista. Um calafrio despertou algo inexplicável. Se as mãos são peludas, imagina..., pensou. Os dois se entreolharam e ela deu um passinho para aproximar seu corpo ao dele. Perna com perna. Melhor dizendo pernão com perninha. O homem era gigante. Procurava no reflexo da janela algo no paquera que lembrasse o ídolo, o cantor Xandy. A pestana, disse alto, sem querer. A mulher sentada em frente olhou e riu de Lindamir. As mãos peludas, nem pensar. Ficaria até feio segurar o microfone com aquela mão. Ainda sentia dores no pé, ao lembrar o show de Xandy no Parque de Exposições Ney Braga. Literalmente fora pisoteada. Nem conseguiu ver o cantor. Mancou por duas semanas.
Lindamir esticava o pescoço para ouvir o papo do rapaz com dona Ângela, sua vizinha também baixinha. Depois de analisar o corpanzil todo, achou que iria demorar três dias para escalar tudo. As mãos peludas seguravam uma sacola de supermercado, que transbordava alças de sutiã. Na certa, arriscou, era um vendedor ambulante de alcinha de silicone e ficava o dia todo em pé no Calçadão. Ele deve gostar de melões grandes, pensou. Logo ela, tão desprovida de peitos. Quando percebeu, já havia passado seu ponto. Lindamir olhou para o alto e pediu ao rapaz para puxar a campainha. Ele sorriu e obedeceu. Depois de se espremer entre os passageiros, deu uma última olhadela, desta vez mais insinuante. Ao descer, sorriu e gritou. Lindamir.


