Amor faz mudar a rotina
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domingo, 01 de novembro de 2009
Caroline Vicentini<br>Reportagem Local 
A aposentada Lucília Cravo Mira praticamente abandonou marido e casa para acompanhar a mãe durante os sete meses em que esteve internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital de Londrina. A comerciante Maria Cristina Barros Milani fechou um negócio recém-inaugurado e viu a dinâmica familiar alterada desde que passou praticamente a morar no hospital para cuidar da filha, nascida prematura e com graves problemas no sistema digestivo. Desde maio, a família da estudante Simone Aparecida Arruda teve a tranquila rotina de sitiante em Santo Antônio da Platina alterada quando a adolescente iniciou o tratamento contra a leucemia. Em comum, a dor por acompanhar o sofrimento de um ente querido hospitalizado e um cotidiano que passou a se organizar em função do tratamento.
Portadora de uma doença pulmonar obstrutiva crônica, a aposentada Maria da Luz Cravo passou sete meses internada numa UTI, em Londrina; cinco deles respirando com o auxílio de aparelhos. Por duas vezes ela foi induzida ao coma. Ao seu lado, oferecendo carinho e palavras de otimismo e conforto estava a filha, Lucília. ''Entrava três vezes por dia na UTI. Tentava deixar a casa limpa até às 10 horas, voltava às 11h30 para fazer o almoço, e às 14 horas já estava novamente no hospital. Era muito desgastante, mas mesmo quando ela estava desenganada pelos médicos, tinha certeza que voltaria com a minha mãe para a casa'', recorda. Durante um mês, Lucília passou oito horas no hospital. A ameaça da perda aumentava a cada vez que um paciente internado morria.
Maria da Luz teve alta no final de setembro e, acamada, recebe os cuidados da filha 24 horas por dia. ''Dou comida, banho, remédio, acordo de hora em hora para ver se está tudo bem. Muitas vezes o cuidador acha que está sozinho, mas se não fossem os meus anjos da guarda (família, amigos, profissionais de saúde, voluntários) não sei se suportaria'', revela. Corada, lúcida e bem-humorada, Maria da Luz reconhece os esforços da cuidadora. ''Tenho uma filha maravilhosa!''.
Aos seis meses de gestação, Maria Cristina teve um descolamento de placenta. No dia 8 de setembro de 2008, Júlia Vitória veio ao mundo pesando apenas 860 gramas e com um grave problema no sistema digestivo. Desde então, a vida da comerciante é marcada por idas e vindas ao Hospital Universitário (HU), e vigília constante da filha, alimentada por sonda. ''Praticamente me anulei. Estava acostumada a me arrumar e sair para trabalhar. Agora, até mesmo quando a Júlia está em casa, não tiro os olhos dela. Até quando vou tomar banho quase coloco o carrinho dentro do box com receio de que ela passe mal.''
O acompanhamento à filha hospitalizada também provocou mudanças na dinâmica familiar. A comerciante sofre com as cobranças da primogênita, de 5 anos, que em 60 dias conseguiu ver a mãe apenas quatro vezes. ''O momento mais difícil foi quando me chamaram na escolinha para mostrar um trabalho em que ela desenhou apenas o pai e a irmã. Digo a ela que para a irmãzinha crescer preciso cuidar bastante dela. É uma situação difícil'', desabafa emocionada. Fé e o auxílio da família e profissionais do hospital formam a rede de apoio à Maria Cristina. ''Tenho certeza que a minha filha ficará bem'', assegura.
A pacata rotina de lavradores da família Arruda, em Santo Antônio da Platina, foi radicalmente alterada pelo diagnóstico de leucemia em Simone, 13 anos, filha do casal Valdemar e Josiane. A lavradora precisou abandonar o plantio de couve e uma proposta de emprego para acompanhar o tratamento da filha no HU. Valdemar, que não havia dormido um dia longe da mulher desde que se casaram - há 15 anos -, agora só a vê nos finais de semana.
Em um momento em que as despesas aumentaram, a família teve a renda proveniente da comercialização de leite reduzida. Até a alimentação mudou para se adaptar à dieta de Simone. ''Minha filha já passou por cinco internações. O emocional está abalado porque quase todos os dias vejo gente morrendo. Tem dias que não tenho forças para nada'', desabafa a lavradora.
Para enfrentar os momentos difíceis, a família apega-se à fé. O otimismo de Simone também fortalece a família. ''Não admito pensar no pior. Acredito muito em Deus. Tenho certeza que serei curada'', afirma.


