Amor e fraternidade?
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sexta-feira, 14 de dezembro de 2001
Telma Elorza<BR>De Londrina 
Com o que sobrou do 13º em mãos, de pois de cobrir o che que especial, ela sen tou à mesa da cozinha para fazer a lista de Natal. Havia decidido que, este ano, iria sim dar um presente para cada um. Há tempos ficava sempre devendo uma lembrancinha para um ou outro. Esperou os filhos dormirem e o marido ficar roncando em frente à tevê para não ter que aturar o ''compra isso, quero aquilo'' ou o ''isso é bobagem'' da cara metade. Sabia que teria que fazer malabarismos, num jogo de estratégia, para que todos recebessem algo. Esticar a merreca que sobrou, por assim dizer.
Lápis e papel na mão, começou a lembrar de todos. Principalmente daquela cunhada que, no Natal anterior, lhe deu um superpresente e fez cara de pouco caso quando recebeu o seu, um porta-retrato mixuruca comprado no 1,99. Este ano iria dar o troco.
O nome da desagradável seria o primeiro da lista. ''Quem mais?'', pensa. Lógico, pai, mãe, sogro, sogra, os dois filhos, o marido se bem que a vontade era esquecer dele. Afinal, nunca ganhava nada em troca do pão-duro. Não, se o fizesse teria que aguentar a falação da megera da sogra.
Irmãos, é claro. Mas se comprasse algo para os seus, com certeza teria que comprar para todos os cunhados. Senão, a falação seria do marido. ''Injutiça'', raciociona, ''afinal, tenho só dois e ele, seis, todos imprestáveis''.
Quantos tinham na lista até agora? ''Dezesseis? E ainda não coloquei nem metade!'', surpreende-se. Faltavam todos os sobrinhos, cinco seus e fez as contas rapidamente 19 do marido. Ô família que se multiplica rápido. Isso somava 40 presentes. ''Não adianta, nem que faça o dinheiro esticar até arrebentar. Vou ter que cortar'', conclui.
Mas a lista ainda não estava completa, constata desesperada. Faltavam a tia Madalena, o primo Eurico dois chatos, mas que nunca esqueciam o presentinho dos filhos , a vizinha fofoqueira da mãe e, quem mais? Claro, a imprestável da secretária do marido, a lerda da secretária do lar e o vigia noturno que mais dorme em serviço do que trabalha. Sem falar na sua melhor amiga que, esta sim, merecia um belo presente. Ah, o namorado da filha e o melhor amigo do filho. Pronto. ''Acho que é só'', pensa. Fez as contas novamente: 49 presentes. ''É, mais um ano que não vou poder presentear todo mundo'', conforma-se.
Mas ela sabia que a pior parte estava ainda por vir: decidir quem fica e quem sai da lista. Teve vontade de tirar cara ou coroa, sortear os nomes, deixar o destino decidir. Mas aí teria que aguentar falação de todo mundo. Não, melhor fazer os cortes. Primeiro, risca todos os irmãos. Depois, é a vez dos sobrinhos. É até um alívio. Escolher presentes para 24 crianças com idades variando entre um e 22 anos não seria bolinho, mesmo. ''Principalmente porque a maioria é uma peste que não merece ganhar nada mesmo''. Deixa só os nomes dos seis afilhados senão tem chiadeira.
Sogro e sogra? Não, o marido a mata. Risca os nomes do pai (''ai, que pena'') e do sogro. Tudo bem, eles não ligam mesmo para essa bobagens. Os presentes da mãe e da sogra, faz uma anotação mental, têm que ser iguais. Depois da confusão criada há cinco anos pela megera, por causa de um presente melhorzinho para a mãe, nunca mais esqueceu a lição. A cunhada metida que esnobou seu presente? Fora. ''A melhor vingança'', diverte-se.
Mas faltam ainda os outros. O que fazer? Deixar o namorado da filha espernear? ''Hum, não seria má idéia. Afinal, ela que compre algo para aquele mauricinho mimado com o que sobrou da mesada, se é que sobrou alguma coisa'', analisa. Idem para o amigo enxerido do filho. Pronto, menos dois. O mesmo pode valer para a secretária do marido, aquela chata fanhosa, pensa. ''Ele que se vire com ela'', conclui.
Cansada, decide deixar para escolher, no dia seguinte, o que dar a cada um dos que sobraram na lista. Manda o marido ir para cama, escova os dentes, veste a camisola e deita. Um último pensamento lhe surge antes de pegar no sono: ''Ah, o Natal. Época tão linda, de amor e fraternidade. De paz e boa vontade entre todos''. E ronca alto, acordando o marido.


