AMOR DOENTE - Crimes denunciam fragilidade emocional
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domingo, 11 de novembro de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Uma jovem morta dentro da universidade em que estudava; um marido que, ao chegar em casa de madrugada, ateou fogo no corpo da mulher, que dormia ao lado dos dois filhos, em Ibiporã (14 quilômetros a leste de Londrina); os boatos de que a polícia americana havia conseguido prender Marcos Panissa, que matou a mulher com 72 facadas no ano de 1989... Nos últimos dias, a violência, provavalmente motivada por ciúme e sentimento de posse, tomou conta das páginas dos jornais e fez ressurgir na sociedade os questionamentos sobre os crimes passionais.
Para a psicóloga clínica e organizacional Isabel Doval, integrante da Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos (SBDG) e coordenadora de grupo de estudo sobre vínculos afetivos e sociais, o excesso de estímulos do mundo atual tem agravado as relações doentias. Segundo ela, é preciso aprender a organizá-los, e uma família estruturada é essencial para que tenhamos nossas referências de identificação.
''O que percebemos hoje em dia é que tudo está muito disperso, as referências são muito diferentes, como se cada parte da pessoa ficasse em um lugar e fosse difícil juntar isso. Nossa integridade é que nos dá saúde para suportar frustrações como a de perder uma pessoa amada. Mas como são muitos pedaços, são também muitas perdas, criando uma grande fragilidade emocional, que torna insuportável qualquer perda. Não à toa se toma tanto remédio para depressão atualmente'', argumenta a psicóloga, que é de Porto Alegre e esteve em Londrina na semana que passou.
Ela lembra que os crimes registrados com frequência cada vez maior colocam em dúvida valores que até então pareciam firmes. ''Um exemplo foi o crime cometido por Suzane von Richthofen, que provocou um grande choque porque foi algo que atacou profundamente o núcleo da sociedade, que é a família. Penso que estes crimes, esta loucura toda, tem a ver com a quantidade de estímulos, uma diversidade de referências que a gente ainda não conseguiu organizar.''
Até culminar com os crimes, as relações percorrem um caminho marcado pela fragilidade. ''Tudo bem pensar que ninguém é de ninguém, mas e o compromisso? E o investimento em um vínculo? Não se investe, não se tem compromisso, e o medo de perder fica muito maior. A tal ponto que matar ou morrer acaba sendo uma saída para aliviar o tamanho da angústia'', explica Isabel.
De acordo com a psicóloga, o ciúme, dependendo do grau, é uma ofensa porque significa desconfiança em relação ao outro. ''A gente nunca sabe o momento exato em que nos apaixonamos. Este momento instantâneo, porém, acontece em função de uma busca infantil, que é a fantasia de ser completo, de ser inteiro.'' Segundo ela, na infância a percepcão de mundo é restrita às nossas sensações. E como é uma experiência muito forte, e como não nos desfazemos de nada do que experimentamos, ficamos com este registro de que, em algum momento de nossa existência, éramos tudo o que existia.
Na definição de Isabel, é como se perseguíssemos para o resto da vida esta fantasia de ser tudo. ''À medida em vamos nos desenvolvendo percebemos que não somos tudo, que há limites para o que somos. Aprendemos com racionalidade e civilidade a lidar com essas emoções, angústias e medos, colocando-os dentro de um parâmetro real. Mas dizem que, no momento exato em que o amor acontece, vem também o medo de perder o outro, e com ele o sentimento de posse. Porque em um primeiro momento este amor é baseado muito mais em projeção, em fantasia, já que não há conhecimento suficiente entre ambos.''
A psicóloga explica que quando o crime acontece é porque alguém está psicótico, sem limites. ''Posso ter medo, querer que o outro fique comigo para o resto da vida, mas não posso deixar de reconhecer que o outro tem os seus desejos, suas vontades, e eu não posso tirar sua vida em função destes desejos.'' Para Isabel, isso é amor doente, primitivo, como se fosse concebido por uma criança que não tem nada desenvolvido ainda, que acredita que tudo existe para satisfazê-la.


