Apaixonar-se por alguém sem saber como é seu rosto ficou comum em tempos de internet. O romance que você vai conhecer agora também se passa ''às escuras'', mas carrega uma diferença fundamental em relação aos namoros virtuais: a certeza de que os dois jamais verão um ao outro.
Idalete Rosa, 51 anos, e Osvaldo Satoshi Suzuki, 50 anos, são cegos. Conheceram-se há 14 anos, num encontro precedido por muita propaganda dos cupidos que os rodeavam no Instituto dos Cegos de Londrina. ''Eu tinha uma professora que me falava muito dele, sobre como se virava sozinho e fazia um monte de coisas que eu achava não ser capaz de fazer. Fiquei muito curiosa'', ela diz. E ele: ''Foi um colega que falou na Idalete. Gostei do nome dela. É diferente, né?''.
Quatro anos depois - mais exatamente no dia 31 de maio de 1996 - os dois passariam a dividir a mesma casa, as mesmas alegrias, as mesmas dificuldades. Idalete encontrou em Osvaldo o companheiro que seu ex-marido deixara de ser quando, aos 28 anos, ela perdeu totalmente a visão. ''Ele passou a sentir vergonha de mim. Se um amigo dele comentava sobre minha condição, ficava muito nervoso. Nosso casamento pifou'', revela. A antiga união deixou um casal de filhos, hoje com 27 e 30 anos de idade.
Osvaldo, que nunca se casara antes, saltou da solidão para a presença constante da mulher. O casal é visto sempre junto - na rua, na igreja, nas atividades da Associação de Deficientes Visuais de Londrina e Região (Adevilon). De braços dados, enfrentam os obstáculos físicos e o preconceito que persiste no começo do século 21. ''Tem as pessoas que acham que a gente devia ficar quieto em casa. Ainda bem que ele é calmo e me completa, porque eu fico nervosa por qualquer coisa'', expõe Idalete.
Individualmente, cada um expõe seus talentos, qualidades e autonomia. Ela é cozinheira de mão cheia e faz bicos como massagista. ''Uma mulher batalhadora, é o que mais gosto nela'', sublinha o eterno admirador. Ele tem clientes cativos para as peças de macramé (técnica de dar nós em cordões) que produz e ensina a fazer. Além de sereno, é ''um homem muito sincero'', na definição da companheira.
Junte as duas metades e você verá um exemplo de felicidade. Não aquela que as roupas caras e as cirurgias plásticas dão e tiram com a mesma velocidade. Mas uma baseada no amor que não vê as aparências, que não faz comparações com corpos alheios, que supera os sinais do tempo. ''Eu nunca me preocupei em saber como ele era fisicamente. Nunca perguntei nada sobre isso. A gente tem que gostar da pessoa do jeito que ela é por dentro'', afirma Idalete. Será que é preciso ser cego para amar assim?

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