Uma das pessoas salvas por dona Aracy também vai completar 100 anos, em novembro. Ela se chama Maria Bertel Levy e hoje vive no mesmo bairro da benfeitora. Lúcida, fala com carinho sobre a mulher, de quem acabou se tornando amiga para toda a vida. ''Fui pedir um visto para entrar no Brasil e conheci Aracy. Foi amor à primeira vista.''
Naquela época, em Hamburgo, o marido de Margareth estava escondido em um lugar que apenas ela sabia. No dia em que ele deveria embarcar, Aracy deixou o seu carro com placa consular com Margareth para ela ir pegá-lo, caso houvesse qualquer imprevisto. ''Ela guardou minhas jóias em sua casa e nos acompanhou até o camarote do navio. Lá, escondeu o saquinho com as jóias na descarga do banheiro. E só desceu quando já estavam retirando a ponte'', lembra. Margareth conseguiu retomar o contato com Aracy porque tinha o endereço da mãe dela, Sida de Carvalho (que faleceu aos 104 anos).
Pelo seu feito, Aracy é a única brasileira com o nome no Museu do Holocausto, em Jerusalém. Lá, há uma árvore plantada em sua homenagem no chamado Jardim dos Justos, onde são citados outros protetores famosos, como Oskar Schindler.
Literatura
Aracy voltou ao Brasil com Guimarães Rosa em 1942, depois de um tempo em Baden Baden, onde viveram com as porções racionadas de comida e sem calefação. Casaram-se por procuração no México - as leis brasileiras não permitiam o casamento de desquitados. Em terra natal, Aracy abriu mão da carreira por causa do amor a seu Joãozinho, apelido carinhoso pelo qual chamava o escritor. Era proibido que duas pessoas casadas trabalhassem na mesma embaixada.
Depois do período em que o escritor trabalhou na embaixada de Bogotá, na Colômbia, os dois foram para o Rio, onde passaram a maior parte da vida, rodeados por cachorros e gatos. A família conta que Aracy ficava sentada ao lado de Guimarães enquanto ele escrevia, dava palpites e sugestões. Não foi à toa que ele deu ''Grande Sertão: Veredas'' para a mulher, com a seguinte frase: ''À Ara - minha mulher, muito amada, minha companheira para sempre - com a vida e o carinho do seu Joãozinho''.
Nos anos sombrios da ditadura militar, Aracy voltou a praticar sua solidariedade. Com Guimarães, ajudou o amigo do casal Franklin de Oliveira a se exilar. Já viúva, ficou sabendo que o compositor Geraldo Vandré estava sendo procurado e o escondeu em seu apartamento por quase três meses. Eduardo lembra dessa época. ''Tínhamos medo de que as crianças acabassem entregando.'' Vandré ainda ficou escondido na casa da mãe de Aracy, em São Paulo, antes de cruzar fronteiras.

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