A primeira vez que Martin reparou no cavalo era uma tarde quente de verão. O menino estava pedalando pela rua de casa e o cavalo parecia triste, de cabeça baixa. O animal estava amarrado com uma corda presa a um gancho no chão, num terreno baldio. Um sol de mais de 30 graus e nem uma árvore para fazer sombra. ''Com tanto capim, fome ele não tem. Talvez sede'', pensou Martin.
O garoto encostou a bicicleta no portão da casa e tentou esticar a mangueira que a mãe usava para lavar a calçada. Não alcançava. Teve outra idéia. Trouxe um balde da lavanderia e usou a mangueira para enchê-lo de água. Só então descobriu que o peso era demais para seus 25 quilos. Foi despejando a água até conseguir tirar o balde do chão. Ficou menos da metade e mesmo assim foi um trabalhão atravessar a rua e vencer o mato até onde estava o cavalo.
Martin era menino de cidade, nunca tinha chegado perto de um cavalo. Olhou temeroso para as patas grandes, deixou o balde no chão e recuou um pouco. Só então o cavalo se mexeu. Para satisfação do garoto, o bicho bebeu toda a água do balde. Martin fez mais 3 viagens até notar que o cavalo estava satisfeito. Daquele dia em diante, todos os dias, ao cair da tarde, Martin arrastava o balde pela rua até o terreno baldio e dava de beber ao cavalo. No início, os dois guardavam uma distância prudente. Depois, assim que o menino vinha com o balde, o cavalo chegava mais perto e já bebia enquanto o garoto ainda segurava a alça.
Um dia Martin arriscou esticar a mãozinha e tocar na cabeça do cavalo. Agora, já eram amigos. Martin descobriu que cavalos comiam cenouras e gostavam de doce. O menino fazia '' experiências'' levava beringela, pepino, pedaços de bolo... e aprendia, assim, o paladar do novo amigo. Às vezes o cavalo desaparecia durante um ou dois dias e depois voltava. O dono devia ir buscá-lo durante a noite, porque Martin nunca conseguiu surpreendê-lo.
Um dia, um homem bateu palma no portão da casa de Martin. Era um sujeito de cara feia, chapéu na cabeça. Martin mostrou a cabeça pela janela da sala:
O que é?
Você é o menino que anda dando água e comida para o meu cavalo?, perguntou o homem.
Martin gelou. Então aquele era o dono do cavalo... Pensou em negar, mas não conseguia dizer sim nem não. Ficou ali parado na janela. O homem deu meia volta e reapareceu puxando o cavalo pela corda.
Eu só vim agradecer. Não quer dar uma voltinha nele?
E foi assim que o menino da cidade montou cavalo pela primeira vez. Sentado no lombo de um amigo.

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