Lúcio Horta
De Londrina
A acusação de racismo feita anteontem pelo operário Antonio Carlos de Oliveira, 25 anos, contra Antônia Batista Bore, 38, esposa do proprietário da Rodil Madeiras e Material para Construção, foi confirmada ontem pelo ajudante- geral da empresa, Abel Martins Ramos, 34. Ramos prestou depoimento ontem de manhã ao delegado Joaquim Antonio de Melo, do 4º Distrito Policial de Londrina, como testemunha no inquérito que investiga o caso.
‘‘Eu vi tudo. O Antonio foi chamado de ‘macaco’, ‘vagabundo’ e ‘tem que morrer’’, garantiu Abel. Segundo ele, a briga começou porque o filho de Antônia, chamado de Marcelo, acusou Oliveira de ter riscado o caminhão da empresa. Houve discussão, princípio de briga, e a mãe do rapaz teria começado a ofender o funcionário denegrindo a raça negra. A confusão só não foi maior porque o dono da empresa, Ambrósio Borin, repreendeu o filho e a esposa por causa das agressões.
Abel Ramos, que também é vizinho de Oliveira, chegou à delegacia acompanhado do advogado Jorge Custódio, secretário-geral do Centro de Direitos Humanos de Londrina (CDH), que ingressou anteontem com uma representação criminal contra Antônia Bore baseada na lei 7.716, de janeiro de 1989, que prevê penas de um a três anos de cadeia e multa para quem praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, etnia, religião ou procedência.
Além de confirmar a denúncia de racismo, o auxiliar-geral afirmou ainda que, no final da tarde de anteontem, Marcelo teria feito uma ameaça contra Oliveira. ‘‘Disse que se (Antonio) aparecesse na empresa iria dar 500 tiros na cabeça’’, declarou. Também acusou que trabalha há três meses na empresa sem registro em carteira.
Sobre o motivo que o levou testemunhar a favor do amigo, Abel disse: ‘‘A gente trabalha tudo junto e é triste o que aconteceu’’. Ele completa: ‘‘Está na cara que vou perder o meu emprego. Mas fazer o quê? O auxiliar é casado e pai de dois filhos.
‘‘A testemunha é forte porque reforça a tese de racismo’’, considerou Jorge Custódio. O advogado informou que ontem mesmo também iria entrar com um pedido de fiscalização no Ministério do Trabalho por conta das irregularidades nos contratos entre empregados e a Rodil - além de Abel, o próprio Oliveira estaria em situação irregular. Além disso, iria protocolar na Justiça do Trabalho uma ação trabalhista de indenização por danos morais. O valor da indenização pedida será de 500 salários mínimos.
O delegado Joaquim de Melo informou que pretende ouvir mais três ou quatro funcionários da empresa que também teriam presenciado a agressão. Ontem mesmo ele iria convocá-los e hoje deve colher os depoimentos. Ainda segundo o delegado, a denúncia de ameaça contra Oliveira também será relatada no inquérito.
Joaquim de Melo acrescentou que Antônia, Marcelo e Ambrósio também deverão ser ouvidos na próxima sexta-feira. O delegado revelou ainda que um outro caso de racismo também está sendo investigado no 4º DP. Ele não soube dar os detalhes do caso porque os documentos estavam na sala do escrivão, que ontem estava de folga. ‘‘É uma situação parecida’’, informou.
Antonio Oliveira, que também foi ao 4º DP acompanhar o colega, disse ontem que, apesar de ainda estar chateado, também estava orgulhoso em poder defender a raça. ‘‘Se todos fizerem o que eu fiz, talvez um dia o racismo acabe. Por isso vou até o fim’’, assegurou.

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