Depois de praticamente ter fundado o bairro há 33 anos, José (nome fictício), 65 anos, está tendo que morar de favor na casa de um parente porque teme ser morto por marginais se voltar para o Jardim Leste-Oeste (zona oeste de Londrina). Todos os seus familiares 23 pessoas, entre crianças e adultos foram expulsos na última sexta-feira das sete casas que possuem no bairro e agora correm o risco de ter os imóveis invadidos e saqueados. Amedrontados, vinte membros da família já se mudaram para São Paulo (SP).
José contou que a causa da expulsão foi a recusa do filho dele, de 15 anos, em assumir o assassinato do operário Damião do Santos Ramos, 27 anos, morto enquanto trabalhava numa fábrica no Jardim Nossa Senhora da Paz. O filho de José foi ameaçado por Cléber dos Santos Gouveia, 19 anos, o ''Clébinho'', preso dias depois pelo crime. Pensando que o jovem teria participação na prisão, a gangue ligada ao suspeito invadiu a casa de José e roubou diversos objetos. ''Eles acharam que a gente tinha denunciado o Clébinho para a polícia, mas nós não fizemos nada'', garantiu.
A família inteira foi obrigada a deixar o Jardim Leste-Oeste. Eles foram escoltados pela polícia, depois de conseguirem colocar em um caminhão apenas uns poucos pertences. ''Nos roubaram quase tudo. Só deixaram os móveis grandes que não conseguiram carregar'', desabafou José. O grupo chegou a apontar um revólver calibre 38 para a cabeça de José e a queimar um álbum com fotos de família. ''Eles falavam que se a gente chamasse a polícia, eles também expulsariam os policiais''.
Todas as 23 pessoas da família foram para a casa de um parente em outra região da cidade, com apenas três quartos pequenos. ''Dormimos todos juntos. Teve gente que dormiu embaixo da mesa da sala'', detalhou. José, que está desempregado e não recebe aposentadoria, contou que os familiares que estavam empregados abandonaram o trabalho e as crianças deixaram a escola. Vinte parentes já se mudaram para São Paulo, onde vivem outros membros da família.
José, que criou toda a família no bairro, lamenta não poder retornar para casa. ''Para lá não posso voltar, porque não quero morrer''. Ele acredita que a única saída é também se mudar para São Paulo já que a liberdade que tinha não poderá mais ser reconquistada. Segundo ele, pelo menos outras cinco famílias já foram expulsas do Jardim Leste-Oeste e tiveram as casas ocupadas por outras pessoas.
José deu queixa do roubo no 3º Distrito Policial mas teme que os sete imóveis sejam ocupados e que a família não consiga mais recuperá-los. Desde o dia em que foram expulsos ninguém mais voltou até o bairro para saber como estão as casas. ''O que eu queria pedir é que a Justiça ou alguma outra autoridade tome providências para a gente não perder nossas casas''.

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