Uma comerciante de Medianeira (65 quilômetros a nordeste de Foz do Iguaçu), insiste em recusar a inclusão de seu nome no programa de proteção a testemunhas criado pelo governo federal. Maria de Lourdes Locks Boito, 48 anos, denunciou o desvio de mercadorias apreendidas no posto de fiscalização da Receita Federal localizado na BR-277. Essas mercadorias são fruto de compras ilegais de sacoleiros em Ciudad del Este, no Paraguai.
Em seu depoimento à Polícia Federal foram citados nomes de fiscais acusados de ‘‘passar’’ produtos confiscados – principalmente cigarros, equipamentos eletrônicos e bebidas – para comerciantes de Foz do Iguaçu. Segundo as denúncias, os receptadores chegavam a estacionar caminhões e até ônibus fretados dentro do pátio do posto para carregar as mercadorias.
Maria de Lourdes já foi ameaçada de morte pessoalmente duas vezes, além de receber várias ligações telefônicas de intimidação. ‘‘Certa vez o parente de um fiscal chegou à minha casa às 2 horas da manhã e disse que, se eu denunciasse alguém, iria morrer’’, relata.
A decisão de levar à Justiça as supostas irregularidades que aconteciam no posto – construído há 18 anos ao lado do restaurante aberto 25 anos atrás pela família de Maria de Lourdes – aconteceu somente depois de ela ter sido presa, juntamente com o filho de 23 anos, em 10 setembro do ano passado. Eles foram acusados de esconder mercadoria contrabandeada em casa, localizada nos fundos do restaurante. ‘‘Fiquei detida 48 dias sem saber o motivo da prisão. Eles (os policiais) juntaram todos os aparelhos eletrônicos que tínhamos e disseram que eu e meu esposo éramos receptadores.’’
Os agentes federais que entraram na casa da família Boito afirmaram ter encontrado aparelhos eletrônicos, duas armas e US$ 37 mil, dinheiro que, segundo o marido de Maria de Lourdes, Nilton Antonio Boito, seria usado para pagar prestações de lotes agrícolas em Matelândia, município onde já possuem uma fazenda de 130 hectares.
Em janeiro deste ano, ela foi à Procuradoria da República em Foz, que encaminhou o depoimento para os representantes da CPI estadual do Narcotráfico. No dia 2 de maio, foi convocada para confirmar as informações aos deputados federais integrantes da comissão que estavam na cidade. ‘‘Denunciei porque sei que eles (os fiscais) querem acabar moralmente com minha família’’, disse Maria de Lourdes, aparentando nervosismo.
Mesmo tendo apresentado à CPI mais de dez nomes de pessoas envolvidas com desvio e receptação de mercadorias, ela não quer saber de proteção policial, por considerá-la ‘‘inútil’’. ‘‘Se alguém quiser fazer mal para a gente, basta aproveitar um vacilo nosso. Com os nomes deles denunciados no processo, fica mais difícil, já que seriam os primeiros suspeitos’’, explicou Nilton.
Depois de encaminhadas as denúncias, o posto de fiscalização recebeu uma muralha de quatro metros de altura, construída ao lado da propriedade da família Boito. ‘‘Isso foi feito para evitar que olhássemos para o depósito aberto. O problema é que eles ultrapassaram o limite determinado pelo DNER para construções às margens da rodovia e acabaram com o movimento do restaurante’’, afirma Maria de Lourdes.

mockup