Ambulatório atende crianças agredidas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de outubro de 2008
Cláudia Palaci<br>Equipe da Folha 
A agressão física ou psicológica deixa marcas negativas profundas na construção da personalidade de uma pessoa. Muitos distúrbios e comportamentos perigosos para ela mesma e para a sociedade podem ser explicados a partir de uma infância violenta. Há um ano, o Ambulatório da Criança Vítima de Violência no Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) busca amenizar os estragos provocados pela agressão ao atender, semanalmente, entre 40 e 60 pessoas -entre vítimas e familiares-, para a discussão do problema e o encontro de soluções. Em mais de 90% dos casos, os agressores são os pais ou responsáveis. O dado é similar à média nacional.
Para comemorar o aniversário do ambulátorio, segue até amanhã a jornada "Marcas da Violência na Infância e Adolescência", no Setor de Saúde da UFPR, com a presença de representantes das áreas de saúde, direito e psicanálise. O objetivo é reciclar os profissionais para um melhor tratamento dos casos e discutir os reflexos futuros da violência nas crianças e adolescentes.
A chefe do Programa de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Departamento de Pediatria e coordenadora da Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Dedica), médica Luci Pfeiffer, explica que a consequência depende da idade da vítima, do tempo em que foi submetida à agressão e do grau de vínculo com o agressor. "O dano aparece de vários modos. Na criança pequena, há um atraso do desenvolvimento, pois não se relaciona com amigos e há um baixo rendimento escolar. Na adolescência, pode aparecer um comportamento sexual desregrado e um sentimento de inferioridade que reflete em fracassos nas relações pessoais e profissionais", relata a especialista.
A "tragédia anunciada" tem cura se a criança passar por tratamento. Pfeiffer alerta para um acompanhamento também da família. "É corriqueiro o agressor estar bem perto. Se ele agride, é porque também está doente e precisa de ajuda. Sem isso, o trabalho de recuperação é lento", afirma.
A agressão psicológica é a mais comum. Também está presente nas outras agressões -negligência, física e sexual. "Pai ou mãe que diz ao filho que vai embora porque ele é um estorvo ou não faz nada direito, por exemplo, é um agressor psicológico. Criança acredita em tudo que o adulto fala. Se a pessoa demorar um pouco mais para voltar do trabalho, vai encontrar uma criança desesperada, sentindo-se abandonada. É preciso ter cuidado com que se fala. Pedir desculpas depois de traumatizar com palavras ou pancadas, não resolve. Só um tratamento", alerta a médica.
Bater para educar é a principal desculpa do agressor, nos casos de violência física. Pfeiffer afirma que adultos que apanharam na infância reproduzem, automaticamente, a ação. A violência também é um desconto das frustrações. Para o agressor ser condenado pelas ações, depende da interpretação do juiz que conduz o processo. O Código Penal é de 1940 e, para a médica, defasado.
O Dedica trabalha há quatro anos para modificar as leis. Crime é quando as atitudes ultrapassam ou abusam dos meios de educar. "É subjetivo porque um espancamento é considerado como uma agressão leve. Para ser grave, o Instituto Médico Legal (IML) leva em consideração apenas sinais de tortura", indigna-se.


