Ambulantes fazem do Calçadão um 'mercado persa'
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sábado, 21 de dezembro de 2002
Renê Muller<br>Reportagem Local 
''Olha os hômi aí!'' Alguém grita a frase e a revoada logo se segue. É gente carregando óculos pra cá, CD pra lá, e artesanato para algum esconderijo. Mais um duro dia na vida dos vendedores ambulantes do Calçadão de Londrina. Os agentes da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) não dão trégua aos anônimos que ganham o sustento oferecendo suas mercadorias no grande corredor de passagem do londrinense.
®MDNM¯O clima é de mercado persa, uma verdadeira mistura de línguas e especiarias. Quem está com fome, tem à disposição uma variedade e quantidade assombrosa de comida. Quem quer caprichar no visual, dar um presente, consertar algum eletrodoméstico, também pode encontrar solução para os seus anseios. Utilidades e inutilidades públicas estão em oferta. A listagem é imensa: vende-se desentupidor de fogão, doces, queijo, frutas, alho, óculos de sol, ferramentas, alças de sutiã de silicone, capas de telefone e videocassete, guarda-chuvas, canetas, pastel, sandálias, cortador de unha e tesourinha.
Andando mais um pouco, econtra-se quitandeiro vendendo jabuticaba, reparador de guarda-chuvas, venda de pilhas, de passe de ônibus, de descascador de alimentos (com direito a demonstração e tudo), de bexigas, de passarinhos que soltam bolhas de sabão, de artesanato, de harpas(!), tem as ciganas lendo a sorte, o vendedor de sonhos. Ufa! O folêgo acabou e ainda é só o começo da inifindável lista.
Essa turma, mesmo fazendo concorrência entre si, é unida na hora do perigo. A maior parte prefere marcar ponto sob as marquises entre as avenidas São Paulo e Rio de Janeiro, ali em frente às Lojas Pernambucanas. ''Dois lenços um real!'', grita um ambulante, tentando atrair consumidor. Pode ser o mesmo que, quando chega a CMTU, berra para ter cuidado como os ''hômi''. Quem vê primeiro avisa. ''Rapaz, eu chego em casa à noite e não me aguento, de tanto correr deles. Eles passam o dia inteiro no encalço'', desabafa o ex-pedreiro Edson Felizardo, 36 anos. Ele conta que caiu de um andaime e machucou a coluna há cinco anos. Desde então ganha a vida vendendo óculos escuros.
É uma mercadoria disputada. Volta e meia chegam os fregueses, experimentando uma infinidade de modelos, pechinchando os preços. Ele diz que vende por R$ 15,00 óculos pelo qual muita gente paga R$ 800,00 em uma ótica. ''Na época em que eu era criança, meu pai não tinha como dar presente no Natal, ninguém tinha condições. Hoje o pobre já pode comprar um óculos escuros'', afirma.
Os ambulantes mais antigos se conhecem de longa data. Sabem onde fica e o que vende cada um. E sabem direitinho quem é forasteiro. Estes chegam trazendo artesanato, em busca do dinheiro da temporada. ''Logo vão embora para a Paraíba e para a Bahia'', diz Felizardo. Luis Santos Macedo chegou a três meses de Feira de Santana (BA), e até agora não tem do que reclamar. Comercializa produtos artesanais que trouxe lá da boa terra. ''Essa terra aqui é muito boa, viu? Só os 'hômi' é que não tão deixando a gente trabalhar'', diz o baiano, que precisa interromper a conversa abruptamente, e sumir com a mercadoria quando chega a viatura da CMTU.


