Mais de 30 pessoas foram encontradas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), na madrugada de ontem, sendo transportadas em condições consideradas sub-humanas em um caminhão que seguia de Patos, na Paraíba, para Chapecó, em Santa Catarina. Trinta e dois deles, sendo um adolescente de 14 anos, estavam alojados no baú do veículo dividindo espaço com mercadorias de couro que seriam vendidas pelo grupo no estado vizinho.
Segundo o chefe de operações da PRF, Marcelo Cidade, o caminhão foi abordado em uma operação montada no quilômetro 95 da BR-116, com objetivo de combater o narcotráfico. Ao encontrar os homens em condições de maus-tratos, os agentes apreenderam o motorista e o dono do caminhão e acionaram o Ministério Público do Trabalho (MPT).
De acordo com o procurador do trabalho Ricardo Bruel da Silveira, o proprietário do caminhão e das mercadorias, Dennys Lucena de Araujo, foi autuado por transporte irregular de passageiros, contratação de trabalho sem vínculo empregatício e aliciamento de menor. Ele receberá uma multa de cerca de R$ 8 mil pelas acusações e ainda terá que pagar o retorno dos trabalhadores, um custo estimado em R$ 14 mil.
Conforme Silveira, se o acusado não consiguir pagar os valores, ele pode ser preso. Na tarde de ontem, o transporte do retorno já estava sendo viabilizado pelo MPT com o Sindicato das Empresas de Transporte do Paraná. O grupo deveria seguir para a Paraíba entre ontem e hoje, já que não haveria condições de abrigo no posto da PRF.
Também a carteira de habilitação do condutor e o caminhão foram apreendidos. Segundo o Código Brasileiro de Trânsito, o motorista cometeu uma infração de trânsito considerada gravíssima, já que não é permitido transportar pessoas ou animais em carretas de caminhões.
Araujo, 24 anos, nega que tenha contratado os homens. "Eu comprei o caminhão parcelado e os R$ 5 mil em mercadoria. Aí nos reunimos para virmos juntos. Eles me dariam R$ 1,00 por produto para pagar a viagem", explica. Ele afirma não ter tido conhecimento que um adolescente integrava o grupo e que essa era a primeira vez que fazia o trajeto com um caminhão. "Vim outras vezes de ônibus, mas o dinheiro não compensava".
Segundo Cleber da Silva Pereira, 26 anos, um dos trabalhadores que estava no baú, todos decidiram fazer a viagem por conta própria, não houve agenciamento. "Faz 50 anos que o pessoal faz isso. Essa já é minha quarta vez. Rachamos as despesas e depois, chegando em Chapecó, ia ser cada um por si por três meses, para depois voltar para casa", conta. Eles venderiam chapéus, carteiras, capas para celular e cintos de couro. Ele diz que a viagem vale a pena e que o dinheiro arrecadado no período ainda ajudaria nas despesas da família por mais um mês após o retorno.
Era a primeira vez de Francisco José Cabral de Andrade, 18 anos. Ele diz que recebia R$ 7 por dia como servente de pedreiro na cidade natal e contava com o dinheiro para sustentar o pai e mãe. Desde a madrugada de segunda-feira, quando saíram de Patos, os trinta e dois seguiam viagem dentro do baú de 5,5 x 2,4 metros. Eles dormiam em redes e usavam o banheiro durante as paradas pela estrada.
De acordo com Cidade, os homens estavam com muita fome e sinal de subnutrição quando foram abordados. Os policiais arrecadaram dinheiro para comprar alimentos para os trabalhadores. Araujo, que diz não ter condições de arcar com a despesa do retorno e as multas, conclui: "Podem me prender. Não tenho como pagar e não quero voltar para a Paraíba para morrer de fome".
A PRF e o MPT do Paraná prometeram iniciar um trabalho em conjunto com as corporações da Paraíba para inibir essa prática.

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