Os sotaques são tão variados quanto os produtos que eles comercializam nas ruas. Visão comum em qualquer cidade de médio ou grande porte, os ambulantes formam um verdadeiro exército que, sem armas para lutarem no mercado de trabalho formal, engrossam as fileiras da informalidade. Em Londrina, a situação não é diferente. Mas nos tempos atuais, há pelo menos uma característica relativamente nova: os ambulantes locais estão tendo que concorrer com ‘‘profissionais’’ de outros estados brasileiros, principalmente vindos do Nordeste. No campo de batalha tem de tudo. Os preços..., bem, se o cliente pechinchar, leva mais barato.
O cearense Antonio Carlos trabalha como ambulante desde 1997. Com dificuldades para conseguir trabalho em Fortaleza (CE), ele passou a ser ‘‘representante’’ de uma fábrica de cabides de madeira para todo o País. Em Londrina, ele está há quase dois meses e consegue vender uma média de cinco peças por dia a um preço de R$ 20,00, ‘‘mas se o freguês chorar dá para negociar um desconto’’. Ele reclama que é um trabalho difícil e imprevisível, mas em compensação já conheceu muitas cidades brasileiras. Solteiro, ele brinca: ‘‘Estou procurando uma paranaense por aqui.’’
O funcionário público aposentado Luis Alves, 71 anos, começou a vender alho há 11 anos para não ficar à toa em casa. Hoje, a pequena banquinha que tem no centro lhe garante um complemento essencial para o salário que fatura da previdência, de apenas R$ 200,00. ‘‘Dá para tirar uns R$ 300,00 por mês, mas tem mês mais fraco que outro.’’
A crise argentina também interferiu nos ‘‘negócios’’ do aposentado. ‘‘Eu buscava o alho todo mês na Argentina mas agora, por causa da situação deles, está muito caro e eu passei a comprar no Ceasa’’, afirmando que a mudança interferiu nos lucros. Graças ao costume do brasileiro de não ficar sem o gostinho do alho na comida, seo Luis conta que tem a garantia ‘‘da freguesia que compra todo mês’’.
O ambulante Juraci Ferreira de Souza, 40 anos, achou uma maneira interessante de driblar as crises econômicas. ‘‘Eu vendo produtos que estão na onda’’, aponta. Aproveitando a paixão nacional pela seleção canarinho, agora está faturando bem com a venda de bonés (R$ 5,00 a unidade) e outros produtos com a marca e as cores do Brasil. Mas já teve épocas melhores: ‘‘na Copa de 94, faturei muito mais.’’ Natural de Patos, na Paraíba, ele aponta que para sustentar seus três filhos tem que percorrer todo o País e até ‘‘cidades do exterior’’, na fronteira com a Argentina, Paraguai e Bolívia.
Ademir Sales, 49 anos, também tem apostado na paixão do brasileiro pelo futebol vendendo cordões e cornetas da seleção. Mas, para não perder a clientela que já conquistou nos 29 anos atuando nas ruas, ele continua comercializando os populares cachorros de plástico e camurça, que passam o dia balançando a cabeça para a criançada.
Já Waldecir Pereira, 42 anos, aposta todas as suas fichas na doçura do mel produzido por abelhas Europa criadas em Ortigueira (região de Ponta Grossa). Mas a vida não tem sido tão doce assim para o ambulante. ‘‘Os fiscais da prefeitura já prenderam meu carrinho duas vezes no ano passado e para tirar tive que pagar R$ 52,00’’, reclama. Waldecir diz que até já tentou tirar alvará, mas desistiu porque ‘‘eles dão licença para trabalhar em ruas que não passam ninguém’’.

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