‘‘É uma desumanidade, um desrespeito ao ser humano o que aconteceu comigo.’’ A frase é da vendedora Ilma Cabral Barboza dos Santos, 23 anos, que mora no jardim Ana Rosa, em Cambé. O fato que originou a reclamação aconteceu há poucos dias, por volta das duas horas da madrugada, quando ela teve uma forte crise de cólica renal. Quando a dor ficou muito intensa, 45 minutos depois, o cunhado de Ilma resolveu chamar o serviço de ambulância, oferecido pela Secretaria de Ação Social de Cambé.
‘‘Disseram que em 15 minutos a ambulância estaria chegando. Depois de 25 minutos, ligamos de novo, e a pessoa disse que que o carro já estava a caminho’’, comentou Ilma. Mas a ambulância não aparecia e as dores foram aumentando. ‘‘Foi um desespero, porque eu nunca tive isso.’’
Quando eram aproximadamente cinco horas da manhã, duas horas e quinze minutos depois da chamada, a ambulância finalmente buzinou em frente à casa de Ilma. Mas aí a vendedora não quis ir mais: a crise pior já tinha passado e ela preferiu esperar amanhecer para procurar um posto de saúde. ‘‘Mas e se fosse um caso de derrame ou infarto?’’
Ainda segundo Ilma dos Santos, a justificativa apresentada foi de que só há uma ambulância funcionando durante a madrugada. ‘‘Mas uma ambulância só para atender uma população como a de Cambé é uma aberração.’’
‘‘Eu considero a nossa prestação de serviço ótima. Mas às vezes acontece de ter pequenos problemas’’, aponta o secretário de Ação Social de Cambé, Orlando Pomini, também conhecido como ‘‘Doutor Golias’’. Ele aponta que existem duas - e não apenas uma - ambulâncias para trabalhar à noite e que o serviço é muito requisitado.‘‘Mas a dona Ilma não teve paciência de esperar. A pessoa acha que assim: ligou, tem que atender na hora!’’
Orlando Pomini explica que não existe um sistema rígido de triagem, na hora de receber as ligações, para separar o que é urgente e o que não é. Mesmo porque, ele diz, ‘‘normalmente quem pede o serviço diz que é emergência’’. Já aconteceu, por exemplo, de a ambulância ir atender casos de embriaguez.
Outra dificuldade, na avaliação do secretário, são os próprios hospitais. ‘‘Eles criam muitas dificuldades para internar o sujeito e por isso a ambulância perde até uma hora no hospital. Mas o serviço que a gente oferece não deixa nada a desejar.’’
Essa opinião, no entanto, não é a mesma do secretário de Saúde de Cambé, Antônio da Silva Freitas. ‘‘Sabemos que o serviço é precário e muito mal usado’’, diz o secretário da Saúde. ‘‘E os casos como o da dona Ilma, ou de um infarto, por exemplo, são realmente mais complicadas, porque o atendimento teria que ser mais rápido.’’
Antônio Freitas lembra que os veículos estão em ‘‘péssimo estado’’ e que a solução para o problema poderia ser a transferência do controle das ambulâncias para a Secretaria de Saúde. Ele afirma que já há estudo para isso, além de verba orçamentária prevista ainda para 97 e que vai possibilitar a aquisição de cinco novas ambulâncias. ‘‘A compra dos novos veículos já foi inclusive licitada. Aí vamos fazer um trabalho melhor, com central de atendimento, rádio. Hoje só temos o telefone.’’
(Lúcio Horta)

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