A socióloga Eliane Superti, professora da Universidade Federal do Amapá, questiona até que ponto é legítima a atuação de Organizações Não-Governamentais na área que compreende a Amazônia Legal. Ela vê com preocupação o excesso de ONGs internacionais atuando naquela região de maneira direta com as comunidades indígenas e com questões relacionadas ao meio ambiente. Só no Amapá, afirma, atuam mais de 300 ONGs.
Eliane esteve na semana passada em Londrina para uma série de conferências sobre ''A Formação do Estado Moderno no Brasil'' no Ciclo de Estudos de Política e Estratégia, promovido pela representação regional da Associação dos Diplomados na Escola Superior de Guerra (Adesg). Ela falou sobre a atuação das ONGs na Amazônia com exclusividade para a FOLHA.
A socióloga considera preocupante o detalhe de que várias dessas organizações desenvolvem atividades que são próprias do Estado. ''O que eu posso dizer é que existem posições de algumas ONGs que são contrárias ao poder do Estado e ao poder local. Existe realmente um conflito que fere a questão da legalidade e o papel que estas organizações desempenham precisa ficar claramente estabelecido''.
Segundo a professora, a atuação das ONGs estrangeiras é tão ostensiva na Amazônia que elas agem como se fossem ''donas'' de certas comunidades ou situações.'''É como se estas ONGs roubassem as falas desses grupos organizados da sociedade, quando na verdade são demandas da própria sociedade civil que precisam ganhar voz e vez junto ao Estado, e elas incorporam isso. É como se elas monopolizassem aqueles espaços, o que é uma posição muito questionável''.
Na opinião da professora, esta forma de atuação das ONGs prejudica, inclusive, o trabalho de pesquisadores brasileiros. ''Existem algumas tribos que são acompanhadas por estas organizações e para você acessá-las para pesquisa, precisa de autorização dessas ONGs, ou seja, elas acabam dificultando o acesso de pesquisadores nacionais''.
A socióloga não quis comentar se o trabalho destas organizações internacionais pode comprometer a autonomia brasileira na Amazônia, mas acha que é ingenuidade pensar que elas agem de forma ''inofensiva''. ''Esta é uma visão utópica das ONgs e romper com isso é necessário. As ONGs tem uma finalidade política e social e imaginar que elas não atuam de forma política, embora não sejam órgãos de Estado, é uma leitura ingênua sobre as ONGs''.
Eliane reconhece, entretanto, que há exceções, sendo possível realizar trabalhos científicos em parceria com algumas destas organizações.

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