AMA cadastra garimpeiros do Lixão
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terça-feira, 25 de março de 1997
Edmara Michetti 
Dorico da SilvaRotina perigosaOs catadores do Lixão retiram o sustento de um ambiente insalubre. Usina de Reciclagem pode ser uma alternativa para elesA partir de hoje a entrada do Aterro Sanitário (zona leste) será controlada pela Autarquia Municipal de Ambiente (AMA) com o objetivo de impedir a frequência de trabalhadores menores de 14 anos no local. A decisão foi tomada ontem durante reunião com os garimpeiros do Lixão, depois que o Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente constatou que 19 menores, sendo nove com menos de 14 anos, trabalham no Aterro, contrariando o Estatuto da Criança e do Adolescente.
O objetivo da AMA é oferecer outra alternativa de renda para os garimpeiros do lixo e tirá-los do Aterro Sanitário. Para isso, hoje a AMA inicia o cadastramento dos menores e também dos 35 adultos que tiram do Lixão o sustento da família. A permanência dos adultos que trabalham no Lixão será permitida até que a Usina de Reciclagem seja instalada. Não queremos causar um impacto social e econômico muito grande, por isso os adultos continuam por enquanto, disse o diretor técnico da AMA, Mauro Maggi. Mas essa atividade é insalubre e perigosa.
A Usina de Reciclagem seria a saída para o problema. Segundo Maggi, o projeto da usina para Londrina prevê a reciclagem de 300 toneladas/dia de lixo - todo lixo domiciliar coletado hoje, diariamente, na Cidade. Para isso, seriam necessários, de acordo com o diretor técnico, 120 funcionários. Vamos aproveitar esse pessoal que já mexe com lixo para trabalhar na usina.
Dorico da SilvaJosé Santos: há 22 anos no Lixão
Hoje à noite representantes da AMA se reúnem com os fabricantes da Usina de Reciclagem da qual Londrina já comprou uma parte, para negociar forma de pagamento do que ainda falta. A Prefeitura ainda deve pagar R$ 350 mil pela usina. A localização da unidade também está sendo estudada por técnicos da AMA - talvez fique perto do atual Aterro Sanitário.
Entre os garimpeiros do Lixão, existem famílias inteiras. É o caso de Maria José Pereira dos Santos, 39 anos. Ela e os seis filhos de 16, 15, 14, 12, 11, e nove anos, trabalham no Lixão. Há quase um ano, os dois netos de dois e três anos também acompanham Maria José na garimpagem. Quando não estão sobre os montes de lixo junto com a avó, os dois ficam num barraco de plástico preto no meio do Aterro onde Maria José guarda as latinhas separadas.
Ontem só estavam ela e o filho Leandro, 16 anos. Maria José garante que os outros quatro estão na escola e só trabalham nas férias. O que eles ganham nas férias ajuda a comprar o uniforme e o material escolar, disse. Maria José afirma que o dinheiro que o marido ganha (cerca de R$ 180,00), cuidando de uma chácara onde moram, nas redondezas do Aterro Sanitário, não é suficiente. Preciso trabalhar e o Leandro tem que continuar para me ajudar, lamenta. Prefiro ir para a escola mas tenho que trabalhar, diz Leandro. Ele parou de estudar na 3ª série e quer voltar assim que conseguir vaga.
Dorico da SilvaMarco Antonio de Freitas, 14 anos: latinhas ajudam orçamento
Os catadores de latas de alumínio como Maria José são maioria entre os garimpeiros. Tiram em média R$ 50,00 por semana. Para isso é necessário, segundo eles, vender cerca de 100 quilos de latas ou 7 mil latinhas. Os irmãos gêmeos Marco Antonio e Marco Aurélio de Freitas da Silva, 14 anos, e outro irmão de 13 anos também engrossam o orçamento familiar com a venda de latinhas do Lixão. Eles trabalham no local há 3 anos e também estão fora da escola - pararam na 2ª e 3ª séries. Antes do Lixão, Marco Aurélio trabalhou tirando leite. Ganhava menos, disse. Daqui a gente não sai porque roubar não vamos.
José dos Santos, 56 anos, é pioneiro entre os catadores do Lixão. Está lá há 22 anos, procurando papel. Ganha em média R$ 500 por mês. Ele acredita que a Usina de Reciclagem venha a ajudar a sua família (quatro de seus oito filhos trabalham no local). Mas isso aqui, até agora, tem alimentado a gente.
Não é por falta de procurar emprego que o vigilante Geraldo Fernandes da Silva, 35 anos, continua garimpando lixo. Sustentando os dois filhos com o dinheiro da venda de latinhas há quase três anos, Silva afirma que semanalmente tira um ou dois dias para procurar emprego. Já bati de porta em porta até em Cambé e nada. No Sine só fazem ficha. Tem que ser aqui mesmo, lamenta. Se acham que a gente gosta desse fedor estão enganados. Tô aqui para não roubar. Meus filhos passar fome é que não vou deixar. Antes de ser vigilante em três empresas, Silva diz ter trabalhado por seis anos na Sercomtel como ajudante de instalador e ainda seis meses na Valcoop como operador de secadora de café.


