Álvaro e a dura luta contra a leucemia
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sexta-feira, 21 de março de 1997
Célia Baroni 
Josoé de CarvalhoSocorro!Álvaro Pereira: necessidade de R$ 60 mil para fugir da angustiante fila de transplantes do INSS A vida do trabalhador rural Álvaro Pereira, 22 anos, mudou em 1995. Para pior. Ele, que trabalhava de dia, estudava à noite e sempre encontrava um tempo para um joguinho de futebol e uma diversão com os amigos, de repente começou a sentir fadiga, mal conseguia sair de casa e apresentava uma palidez fora do normal. Exames trouxeram a má notícia: ele sofre de Leucemia Mielóide Aguda (MLA). E hoje luta contra a doença na esperança de resistir até que seja possível fazer o transplante de medula, sua única possibilidade de sobreviver.
Originário de São João do Ivaí, ele teve de parar de trabalhar, suspendeu os estudos e se mudou para Londrina. Desde dezembro de 96 integra a fila do INSS, à espera de um transplante de medula no Hospital das Clínicas de Curitiba. Mas as perspectivas não são boas. Há 300 pessoas na fila aguardando o transplante e Álvaro é o 15º em prioridade para a cirurgia.
Se tudo correr bem, Álvaro teria de esperar ainda um ano e três meses para se submeter à cirurgia. A estimativa é do próprio HC. Esperar não seria um problema se o caso não fosse leucemia. Enquanto esperam, os pacientes travam uma verdadeira guerra para manter a doença sob controle. Qualquer recaída da doença coloca suas vidas em risco e reduz as possibilidades de sucesso do transplante.
O diretor do HC de Curitiba, Mário Sérgio Cerci, explica que o hospital tem 14 leitos para atender os casos de transplante de medula e realiza, em média, 10 cirurgias por mês. Como existem vários tipos de leucemia, os leitos são divididos proporcionalmente conforme o tipo de caso. Para o transplante de medula óssea em pacientes com LMA, caso em que se enquadra Álvaro, o hospital dispõe de apenas um leito. Na mesma situação que Álvaro, vivendo a mesma angústia, há pelo menos outras 52 pessoas. Infelizmente nós temos um limite de atendimento, lamenta Cerci. Segundo ele, para atender a demanda por transplante de medula óssea, o País deveria ter uma capacidade de atendimento de 750 cirurgias por ano. Hoje, nos cinco centros que realizam este tipo de transplante, a capacidade máxima é de 250.
Restam poucas alternativas para Álvaro: fazer inscrição em outros centros, na tentativa de conseguir a cirurgia antes, ou recorrer à medicina privada. Segundo Álvaro, o HC cobraria R$ 60 mil para fazer o transplante, dinheiro que ele não tem. Filho de trabalhadores rurais, seus pais estão desempregados. Trabalhos temporários que o pai consegue fazer e a ajuda dos seis irmãos estão cobrindo o custo da permanência de Álvaro na Cidade. Ele vive em uma pensão próxima ao ICL, onde faz tratamento. Eu venho de uma cidade pequena, onde todos me conhecem e me ajudariam, mas se eu chegar e falar que preciso de R$ 60 mil para salvar minha vida, eles vão me desenganar. Para a gente isso é muito dinheiro.
Desesperado, Álvaro acusa o HC de Curitiba de omissão e descaso. Ele diz que, quando esteve no hospital, no final do ano passado, teria sido orientado a voltar no dia 27 de fevereiro para internação. Me disseram até para levar minha irmã, que será minha doadora, para se internar junto comigo. Mas, quando voltou, foi desenganado. Afirma que o médico Marcos Bittencourt o atendeu e disse que o transplante não iria acontecer. O médico afirmou que se eu dependesse da fila do INSS iria morrer. E, acrescentando que o hospital estava em crise porque o Governo não ajudava, me mandou fazer inscrição em hospitais de outros estados, ou fazer uma campanha para conseguir o dinheiro para o transplante particular. Álvaro voltou a Londrina em choque. Teve que ser internado às pressas e submetido a nova sessão de quimioterapia. Perdi a esparança de sobreviver.
Mário Sérgio Cerci acredita que houve um problema de comunicação entre paciente e médico. Segundo o diretor, os exames de Álvaro, comprovando que ele está apto para o transplante, só foram concluídos em dezembro último. O paciente só entra na fila quando fica comprovado que ele poderá ser submetido ao transplante, afirma o diretor do HC.
Na versão do HC, o retorno marcado para Álvaro no dia 27 de fevereiro era para uma nova avaliação e exames. O paciente tem que passar por avaliações frequentes. É esta triagem que pode, ou não, alterar a colocação na fila de espera. O desentendimento deve ter ocorrido em consequência da angústia do paciente, acredita o diretor geral.
Cerci esclarece ainda que é prática do hospital avisar os pacientes das alternativas possíveis. Se a pessoa conseguir agilizar o transplante, suas chances são maiores. Não podemos segurar o paciente, nem passá-lo na frente de outros que estão na mesma situação e com a mesma gravidade. O HC forneceu cópias de todos os exames de Álvaro para que a médica dele em Londrina possa tentar a inscrição em Ribeirão Preto.
Álvaro tem parentes naquela cidade do interior paulista, e o setor de assistência social do HC acredita que talvez, lá, a fila possa ser menor e ele consiga a cirurgia antes de um ano e três meses.


