Alunos trocam férias por ação solidária
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terça-feira, 13 de janeiro de 1998
Lúcio Horta 
Mário CésarExpectativaGrupo de estudantes da UEL viaja hoje para o Rio Grande do Norte através do projeto Comunidade SolidáriaVinte alunos e dois professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) embarcam hoje para o Rio Grande do Norte para participar do programa Comunidade Solidária. O avião Hércules, da Força Aérea Brasileira, decola às 11 horas da manhã do aeroporto local, faz escala em Brasília e deve chegar em Natal por volta das 16 horas. Amanhã, metade do grupo parte para Poço Branco e a outra metade para Afonso Bezerra, ambos no interior do Rio Grande do Norte. Eles vão viajar em caminhões cedidos pelo Exército.
O Comunidade Solidária é um programa federal criado em 1995 e coordenado pela socióloga Ruth Cardoso, primeira-dama do País. A idéia é dividir com as populações carentes do Nordeste as experiências desenvolvidas no Sul do País, sobretudo nas áreas de saúde e educação. Além disso, pretende também estimular a solidariedade entre os jovens universitários. Os alunos permanecem nas cidades por cerca de 20 dias e têm a missão de aplicar projetos desenvolvidos dentro da sala de aula. Ano passado, foram pouco mais de 80 cidades atendidas pelo programa; este ano a meta é atingir aproximadamente 180. Esta é a terceira vez que alunos da UEL participam do projeto.
O grupo que vai para Poço Branco será coordenado pelo professor Jéferson Moriconi Cesário, do departamento de Química da UEL. Ele já esteve na Cidade ano passado, onde ajudou a criar uma ONG (organização não-governamental) chamada Amigos de Poço Branco. O objetivo da ONG é dar continuidade ao trabalho desenvolvido na região, explica.
A cidade de Poço Branco (60 quilômetros de Natal) tem pouco mais de 10 mil habitantes, com 1,2 mil famílias de indigentes. A taxa de analfabetismo é de 58,90% entre as pessoas com mais de 15 anos de idade. Lá, 38,5% dos chefes de famílias ganham cerca de meio salário mínimo por mês e 99,9% do esgoto tem fornecimento inadequado. A desigualdade é muito grande. Enquanto aqui você vê bolsões de pobreza, com as favelas, no Nordeste as capitais têm potencial turístico, mas as regiões em torno delas são muito pobres. A extensão da pobreza é muito grande. Por isso é importante fazer este tipo de trabalho, aponta.
Jéferson Cesário destaca que o trabalho desenvolvido pelo programa nos anos anteriores já modificou a realidade de Poço Branco. O professor diz que quando chegou lá pela primeira vez o retrato que encontrou era decadente. O lixo, por exemplo, ficava espalhado pelas ruas, convivendo junto com animais e crianças descalças. Hoje não se encontra mais sujeira na rua, garante.
Cesário observa que no lixo da cidade predomina o plástico e as folhas vegetais. Como o alimento é escasso na região, praticamente não havia lixo orgânico. Outros trabalhos de saúde pública (formação de um aterro para o lixo hospitalar, por exemplo) e educação (inclusive com a formação de uma biblioteca) também estão em desenvolvimento, principalmente com o apoio da ONG.
O professor lembra ainda que em um dos distritos de Poço Branco, por exemplo, as mulheres costumavam andar três quilômetros diariamente para buscar água. Essa rotina era desenvolvida há mais de 35 anos. Com a orientação do programa Comunidade Solidária, em menos de quatro dias a população local fez um canal para levar água ao distrito, em regime de mutirão. O pessoal de lá é muito trabalhador.
A professora Raimunda de Brito Batista, do departamento de Ciências Sociais da UEL, coordenará o grupo que vai para Afonso Bezerra, uma cidade de clima semi-árido e que fica cerca de 170 quilômetros de Natal. Esta é a primeira vez que ela participa do projeto e garante que a expectativa pelo trabalho é muito grande. Raimunda diz que vários projetos de saúde, alimentação e educação ambiental foram preparados pelos alunos para serem aplicados no Nordeste.
A professora, no entanto, não está completamente convencida da eficácia do programa para a solução dos problemas da região. Não sei se, por exemplo, 21 dias serão suficientes para desenvolver este trabalho, observa. Ela também achou o material apresentado pela organização geral do programa muito didático para a realidade nordestina. O vídeo sobre a saúde da mulher, por exemplo, tem segundo ela uma linguagem excessivamente acadêmica, muito longe do dia-a-dia das mulheres da região.
Raimunda Batista, que também é nordestina, nascida no estado da Paraíba, esteve em setembro em Afonso Bezerra para contatos iniciais e preparar a estadia dos alunos. Ela conversou com autoridades locais e percebeu que a cidade foi maqueada, para dar uma impressão melhor do que é. Mas o íntimo da cidade é doloroso, observa. A professora quer evitar que a presença dos universitários e os projetos aplicados no local sejam utilizados para fins políticos ou de forma assistencialista.
Além do trabalho com os alunos, Raimunda Batista vai aproveitar também a viagem para desenvolver um projeto pessoal sobre a cultura da população idosa da região. Tem uma coisa interessante: os velhos são muito respeitados no nordeste.


