Alunos surdos sofrem com falta de intérpretes
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terça-feira, 14 de março de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Alunos surdos do Instituto de Educação Estadual de Londrina (IEEL) depararam-se com um obstáculo na inclusão de pessoas com necessidades especiais, incentivada pelo governo e pela Campanha da Fraternidade 2006. Sem intérpretes oficiais desde que o ano letivo começou, eles têm dificuldade para acompanhar as aulas no único colégio público de ensino regular da cidade que aceita jovens com deficiência auditiva. Em Ibiporã (14 km a leste de Londrina), dois alunos de 5 série do Colégio Ulisses Guimarães enfrentam o mesmo problema.
De acordo com a diretora do IEEL, Sandra Regina do Amaral, a escola tem hoje nove alunos surdos matriculados no Ensino Médio e dois intérpretes, quando seriam necessários quatro. O problema, alega Sandra, é que mesmo conhecendo a demanda para este ano, o Estado ainda não autorizou as contratações. ''Temos uma solução fácil, que é chamar professores já aprovados em concurso público. Mas por um problema burocrático, corremos o risco de desacreditar um trabalho tão bonito, como é a inclusão desses jovens'', afirma a diretora.
Para não inviabilizar os estudos dos deficientes auditivos, duas mães estão prestando o serviço de intérpretes sem nenhuma remuneração. Cada uma tem um filho surdo matriculado no colégio, mas juntas elas estão garantindo que seis alunos possam acompanhar as aulas. ''É revoltante. A inclusão está nas propagandas, está na legislação, mas pelo segundo ano consecutivo meu filho passa por esse problema'', denuncia Sirlene Ferreira de Souza, mãe de Guilherme Augusto, 17 anos.
O adolescente saiu de uma escola especial há dois anos e gostou da experiência de estudar lado a lado com ouvintes. ''Ficamos uns dois meses sem intérprete no ano passado, mas depois que o cargo foi preenchido o Guilherme teve uma evolução muito boa'', destaca Sirlene. Ao se deparar mais uma vez com a falta de um profissional para traduzir o que os professores explicam, a mãe resolveu deixar seus afazeres todas as manhãs para ajudar o filho na escola. ''O problema é que eu sei o suficiente para a comunicação do dia-a-dia, não tenho conhecimento para interpretar as disciplinas. Às vezes, dá na mesma eu estar na sala de aula ou não'', lamenta.
A outra voluntária é uma professora que foi aprovada no último concurso público do Estado para educação especial, mas não foi convocada. ''Não estamos entendendo essa demora. A nossa vontade é deixar os alunos surdos em casa para pressionar, mas são eles que vão sair prejudicados'', diz a intérprete Elisabete Alves Ferreira. Seu filho, André Tiago, 19 anos, está no terceiro ano e tem planos de prestar vestibular.
Com o auxílio das duas voluntárias, os jovens deficientes auditivos disseram à reportagem que estão se sentindo discriminados pelo governo. ''É como um racismo, como se não tivéssemos direito de estudar tanto quanto os outros'', expressa André Tiago. ''Quando minha mãe não pode me acompanhar na aula, fico preocupado, sem saber o que vou fazer na escola'', acrescenta Guilherme Augusto. Os dois rapazes e outros três colegas comentaram que disciplinas como Física, cheia de termos técnicos, são as mais difíceis de compreender sem o apoio de intérpretes.
A presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Martinha Dutra, disse que tomou conhecimento do problema por meio da reportagem e o definiu como ''absurdo''. ''O Estado tem várias formas de prover as escolas com intérpretes e não pode deixar de fazê-lo, porque essa oportunidade de convivência dos surdos com ouvintes é muito positiva'', declarou, garantindo que iria entrar em contato com a Seed.


