CONSCIÊNCIA NEGRA -

Alunos pintam muros de colégio de Londrina com temática afro

Projeto do Colégio Estadual Carlos de Almeida está envolvendo estudantes e ensinando na prática

Pedro Marconi - Grupo Folha
Pedro Marconi - Grupo Folha

Os muros do Colégio Estadual Carlos de Almeida, no conjunto Lindóia, zona leste de Londrina, se transformaram em obras de arte e pelas mãos dos alunos. As paredes da entrada da parte externa e interna da instituição estão recebendo pinturas, com a maioria dos desenhos remetendo à cultura afro-brasileira, como forma de transformar em prática o conteúdo teórico alusivo ao Dia da Consciência Negra, celebrado na quarta-feira (20). 


Alunos pintam muros de colégio de Londrina com temática afro
Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 


De acordo com as professoras da disciplina de artes, Verginia Murino Gibellato e Simone Ferreira Santiago Rezende, que coordenam o trabalho, a ideia vinha sendo estudada há algum tempo e foi concretizada agora. “Foram cortadas algumas árvores que ficavam em frente à escola e estavam condenadas. Com isso a entrada do colégio ficou mais visada e vimos a chance para pintar. Os muros foram pintados de branco e os estudantes estão fazendo os desenhos”, explicaram. 




A docente Verginia Gibellato cuidou da arte dos muros externos: "Importante para a autoestima"
A docente Verginia Gibellato cuidou da arte dos muros externos: "Importante para a autoestima" | Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 


A unidade conta com cerca de mil alunos, sendo que quase a totalidade está integrada ao projeto  denominado “Pintura mural da cultura afro, étnica e contemporânea”, que tem meninos e meninas do ensino fundamental dois e médio, dos períodos matutino e vespertino, além de duas jovens que estudam a noite e se dispuseram a participar. O conteúdo ainda envolve as disciplinas de língua portuguesa, educação física, geografia e história. 


PERTENCIMENTO

A iniciativa iniciou há dois meses, com os desenhos sendo trabalhados no papel. Já as pinturas começaram há cerca de 15 dias e a previsão é que tudo seja finalizado até quarta-feira. Nos muros da parte interna foram produzidas artes referentes ao livro “O Jardim Secreto” - que conta a história de transformação de crianças no contato com a natureza -, de forma lúdica, enquanto que na parte de fora ficaram as imagens contemporâneas, focadas nas etnias. 


Professora Simone Rezende coordenou desenhos da área interna: "protagonistas do trabalho deles"
Professora Simone Rezende coordenou desenhos da área interna: "protagonistas do trabalho deles" | Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 


Para as docentes, o fato de os desenhos terem sido produzidos pelos alunos em todos os processos é uma maneira de promover o sentimento de pertencimento ao espaço público escolar, que vai além dos muros. “Apenas auxiliamos. Eles estão sendo protagonistas do trabalho deles. Estamos percebendo a vontade deles de fazer isso. Tem aluno do ensino médio que estuda de manhã, mas vem a tarde para terminar. É uma forma de trazer suas realidades, sair da teoria”, valorizaram. 


AUTOESTIMA 

O projeto também tem oportunizado a descoberta de vários talentos, em especial para a área artística. “Muitos não sabiam que tinham a capacidade que estão vendo. Estão felizes, radiantes”, comemorou Gibelatto. “Está sendo importante para a autoestima deles”, acrescentou Rezende. Os desenhos da área externa ficaram sobre o cuidado do ensino médio e da interna do fundamental. A ideia é dar prosseguimento no próximo ano, contemplando outros espaços. 


Richard de Jesus valoriza representações por meio da iniciativa: "Cultura diversificada"
Richard de Jesus valoriza representações por meio da iniciativa: "Cultura diversificada" | Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 


Levantamento divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) neste ano mostrou que o Brasil tem 115,9 milhões de pessoas que se declaram pretas ou pardas, o que representa 55,8% da população. No colégio, a representatividade não é diferente. “Tratamos muito em sala de aula questões da cultura negra. Temos vários alunos negros que estão se enxergando nas pinturas. Sentem-se agradecidos pela oportunidade”, citaram. 

 

‘Os desenhos são para refletir’ 

Estudante do 3º ano do ensino médio do Colégio Estadual Carlos de Almeida, Jhonathan Luiz Evangelista, 22, foi responsável por elaborar a parte contemporânea, que posteriormente foi desenhada e colorida nos muros da instituição de ensino pelos colegas. Já integrado a arte por gostar desta atividade, considera que o trabalho é uma maneira de “expandir o horizonte” dos jovens. 


Carolina Teodoro valorizou o aprendizado: "Fiz de tudo um pouco"
Carolina Teodoro valorizou o aprendizado: "Fiz de tudo um pouco" | Gustavo Carneiro/Grupo Folha
 


“Uma experiência fantástica e possibilidade de mostrar nos painéis uma nova forma de ver o mundo. Muitas vezes a cultura negra passa despercebida na nossa comunidade. Então, os desenhos são para fazer refletir e ver que a cultura afro está inserida no nosso dia a dia”, destacou. 


Segundo Richard Ruan de Jesus, 17, também matriculado no 3º ano, a iniciativa está fazendo com que ele e os colegas conheçam novas técnicas. “Estou aprendendo questões que não sabia, como o usar a tinta nas paredes, podendo representar uma cultura tão diversificada e que existe em Londrina”, lembrou. “Fiz de tudo um pouco: desenhei, pintei, contornei. É gratificante e podemos interagir entre nós”, ressaltou Carolina Teodoro, 17, aluna do 2º ano. 


Para Maria Eduardo Bufon, o trabalho tem mostrado que todos são acolhidos: "Respeitamos todos"
Para Maria Eduardo Bufon, o trabalho tem mostrado que todos são acolhidos: "Respeitamos todos" | Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 


O trabalho ainda está promovendo a união entre os estudantes, com o fortalecimento de laços e atuação em grupo. “É uma responsabilidade grande, porque é algo que vai ficar marcado por bastante tempo. Está nos unindo muito, com um ajudando o outro”, relatou Ana Julia Mendes, 12, do 7º ano do ensino fundamental. “Muitos negros ainda sofrem preconceito nos dias de hoje. As pinturas são para todos se sentirem acolhidos, pois aqui respeitamos todos”, afirmou Maria Eduarda da Silva Bufon. 


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