Cambé – Pouco antes do início das aulas, às 18h40, a professora de Ciências da Natureza do Projovem Urbano, Alethea Giordani, já estava à postos com giz na mão à espera dos alunos no Colégio Estadual Manuel Bandeira, no Jardim Rian, em Cambé (Região Metropolitana de Cambé). "Pontualidade é um quesito difícil de ser exigido e é uma característica que temos que relevar", ponderou. A professora sabe das obrigações do trabalho dos 24 alunos que restaram da turma de 150 que iniciou no meio do ano passado.
Se para conseguir recrutar o pessoal já foi difícil, com visitas de casa em casa pelos bairros carentes do entorno, convencer os alunos a permanecer é mais complicado. "Muitos trabalham longe e não conseguem chegar a tempo e desistem", relatou Alethea. Segundo ela, o segredo do sucesso do programa é justamente reconhecer as carências dos alunos. "Não pode funcionar como uma escola normal, se não eles desistem novamente", explicou. As aulas são todas contextualizadas para o universo daqueles jovens.
Luís Fernando dos Santos, de 20 anos, morador do bairro Ana Eliza 3, no limite com Londrina, desistiu dos estudos na 6ª série e estava fora das salas de aula havia sete anos. Desempregado, decidiu investir nos estudos para se qualificar. As aulas de ensino profissionalizante, que fazem parte do currículo, contribuíram para ele ser contratado como padeiro em um hipermercado na cidade há três meses. "Era a profissão que eu queria seguir, mas não conseguia pela falta de estudo. Com o conhecimento que adquiri, realizei meu sonho", comemorou.
A responsabilidade de ajudar nas contas de casa também fez com que Maria Elisabete Coutinho, de 21, desistisse da escola na 4ª série. Sem expectativas durante toda uma década, o Projovem reacendeu um sonho antigo dela: ser professora de Educação Física. "No ano que vem já começo o Ensino Médio e logo vou prestar o vestibular", planejou. Lucas Leme da Silva, 19 anos, pretende seguir os mesmos passos da colega, mas o curso pretendido é outro: Engenharia Civil.
A pedagoga Vera Lúcia Bertoco destacou a evolução dos alunos que se formam em dezembro. "Eles deram um salto muito grande. Alguns chegaram sabendo apenas ler e escrever e hoje carregam uma boa bagagem", contou. Segundo ela, alguns alunos que tiveram envolvimento com a criminalidade trocaram o ambiente hostil das ruas pelas salas de aula. "São jovens em situação de vulnerabilidade que conseguiram abandonar a antiga vida e hoje são exemplos para os demais." (C.F.)

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