Alunos mais velhos nas escolas
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quarta-feira, 03 de março de 2010
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Entrada tardia na escola, baixo desempenho na aprendizagem, mudanças constantes da família por causa da oferta de trabalho e até mesmo a falta de compromisso com a educação são as principais causas de um problema que interfere diretamente no desempenho dos estudantes matriculados na rede estadual do Paraná: a defasagem entre idade e série.
No Estado, 19,5% dos alunos da oitava série são mais velhos que a média dos colegas. O índice sobe para 24,2% ao final do Ensino Médio, conforme dados do portal ''Todos pela Educação''. Em Londrina, os alunos com idade avançada totalizam 19,3% na oitava série e 22,5% no terceiro ano do Ensino Médio.
De acordo com Isabel Félix e Dulce Pasqualina Romero, técnicas pedagógicas no Núcleo Regional de Educação (NRE) em Londrina, o baixo desempenho escolar - que leva à múltipla repetição de ano - e o abandono da escola e posterior retorno são as principais causas da defasagem.
As consequências vão além da simples diferença de idade entre os alunos. Adolescentes com mais de 14 anos matriculados nas séries iniciais do segundo ciclo do fundamental passam a conviver com crianças de 10 a 12 anos e, frustrados intelectualmente, acabam expressando revolta por meio da indisciplina e da liderança negativa na turma. ''Ninguém nasce para se enxergar como fracassado'', avaliou Marlene Melo, assistente do NRE.
O problema atinge também os professores que, além de enfrentarem dificuldades para controlar a classe, convivem também com a frustração de não atingir os objetivos propostos.
''Os alunos tornam-se desinteressados e os professores sentem-se insatisfeitos'', comentou a assistente, para quem o problema só será resolvido a médio e longo prazo. ''A solução está no dia a dia, no trabalho coletivo entre professores e equipes pedagógicas das escolas, que devem identificar o baixo desempenho e propôr intervenções durante o ano.''
Bons resultados
Na Escola Estadual Monsenhor Josemaria Escriva, localizada no Jardim Pacaembu (Zona Norte), a causa principal da defasagem entre idade e série é a multirrepetência. Para tentar minimizar o problema, a pedagoga Silvana Naves Dias realiza, desde o ano passado, um trabalho diferenciado que inclui a detecção das principais dificuldades de aprendizagem, o envolvimento de toda a equipe de professores no saneamento da questão e o investimento na recuperação da autoestima dos alunos repetentes.
Os resultados na escola - que totaliza 280 estudantes - são animadores. De um grupo de 53 alunos do segundo ciclo do ensino fundamental com histórico de repetências múltiplas, 45 foram aprovados por mérito próprio - sem anuência do conselho de classe - no final do ano passado. Apesar de ainda estarem fora da idade recomendada para as séries, os estudantes recuperaram a autoestima e passaram a dedicar-se aos estudos, colaborando com o trabalho dos professores e o rendimento de toda a turma.
O processo que culminou na aprovação dos adolescentes envolveu várias iniciativas. A avaliação diagnóstica para saber o nível dos alunos, obrigatória apenas para as quintas séries, foi realizada em todos os níveis. ''Identificamos, por exemplo, que muitos alunos trocavam a letra 'b' pela 'd'. O professor de Educação Física observou que eles também não tinham noção de lateralidade, o que influencia nas trocas de letras. Fizemos um trabalho em equipe, com professores das duas áreas, para minimizar as dificuldades'', explicou Silmara.
Conforme a pedagoga, grande parte dos problemas é pontual e pode ser sanada com intervenções individualizadas. ''Com maior atenção de toda equipe, é possível, ainda, descobrir e encaminhar os casos de inclusão, como os portadores de deficiência intelectual, deficit de atenção, dislexia'', acrescentou.
Ela defende que as avaliações sejam mais qualitativas do que quantitativas e que o conselho de classe realizado a cada bimestre não avalie apenas os alunos, mas o processo de ensino-aprendizagem, inlcuindo a auto-avaliação dos professores. ''É preciso um grupo unido e coeso para combater a defasagem.''
Apesar do sucesso, Silmara reconhece que o trabalho é exaustivo. ''Alguns professores têm 250 alunos em diversas turmas. É complicado pedir atenção individualizada'', disse. Ela defende que os pedagogos façam a mediação entre as histórias dos alunos e os professores, mas confessa que ela própria não consegue conversar com os educadores da maneira que gostaria. ''Para haver uma mudança no olhar dos profissionais seria necessário haver mais pedagogos nas escolas'', reivindicou.


