Uma lição de cidadania. Assim os alunos da escola A Nossa Escolha - Seta definiram o fim da ‘‘novela’’ que envolveu o polêmico projeto de doação do aterro do Igapó 2, no Jardim Maringá, área central de Londrina, para a iniciativa privada. Os alunos foram os primeiros a defender a área e a se manifestar contrários ao projeto do Executivo - aprovado em julho e sancionado em agosto - que autorizava a doação, por se tratar de um fundo de vale e, portanto, objeto de preservação ambiental. Eles organizaram manifestações, abaixos-assinados, e despertaram a população sobre a ilegalidade do projeto proposto pelo Executivo e aprovado na Câmara Municipal. O capítulo final da novela aconteceu sábado, quando o prefeito Antônio Belinati (sem partido) ‘‘se curvou’’ à vontade da população - como ele mesmo disse - e desistiu do projeto de doação.
Ontem de manhã, no aterro, a alegria estava estampada no rosto das crianças. ‘‘Quando soube pelo jornal que o aterro não ia mais ser doado, fiquei tão contente que tive vontade de chorar. Falei para meus pais: ‘Nós conseguimos, nós conseguimos. E eles também ficaram muito felizes ’’, disse Nastassja Vicentin, 10 anos, aluna da Seta. ‘‘Aprendi com isso que preservar a natureza é muito importante. E mais: aprendi que vale a pena lutar por aquilo que a gente acredita.’’
Igualmente feliz com o resultado da campanha em defesa do Igapó, o garoto Luca Packer Fabiane, 10 anos, lembrou que ‘‘odiou’’ a proposta da prefeitura de doar a área do aterro para construção de um shopping de lazer. ‘‘Odiei porque estavam querendo doar uma área verde, que é pública, para construção de um lugar que a gente ia ter que pagar para entrar. Não estava certo’’, ensinou. ‘‘Agora fiquei muito contente, senti uma felicidade grande e percebi que vale a pena lutar.’’
A colega Larissa de Menezes Alvanham, 10 anos, destacou que agora é preciso brigar para a revitalização do local. Pedro Guilherme Pauletti, 11 anos, acrescentou: ‘‘Foi mesmo uma lição de cidadania. Porque se tem alguma coisa que a gente está contrariado, a gente tem que insistir no que acredita.’’
A educadora Mira Roxo, da escola A Nossa Escolha - Seta, revelou que estava muito preocupada com o destino do aterro depois que o prefeito declarou que iria ouvir a comunidade para tomar uma decisão sobre o aterro. ‘‘A população já tinha se manifestado, a gente já tinha protocolado mais de três mil assinaturas, e ele queria ouvir o quê?’’, questionou. ‘‘E, para as crianças, seria desastroso perceberem que a lei não tem significado.’’
Mira acrescentou que a discussão sobre cidadania faz parte do dia-a-dia dos alunos na escola e que o envolvimento na questão do aterro foi importante para atestar na prática tudo aquilo que era debatido na sala de aula. Lembrou também que a escola fica em frente ao Vale Água Fresca e que a preocupação das crianças com a preservação não surgiu somente agora, com a polêmica do aterro. ‘‘Eles estão sempre limpando, preservando o vale. Sempre sentiram essa preocupação’’, garantiu. E completou: ‘‘Agora, eles têm consciência de que estão fazendo história’’.
Maria José Pereira de Souza, presidente da Associação de Moradores do Jardim Maringá, também comemorou a vitória e disse esperar que o local seja realmente revitalizado. ‘‘Para nós foi uma alegria imensa e por isso temos que agradecer. Esperamos agora que a prefeitura faça daqui uma grande área de lazer, com iluminação, limpeza e outras coisas. Isso é tudo o que a gente espera.’’

mockup