Aluno tem regalia em troca de disciplina
Dimitri do Valle
De Curitiba
Falar em disciplina dentro da sala de aula para os alunos do Colégio Estadual Lamenha Lins, no bairro Rebouças, em Curitiba, significa manter algumas regalias. A direção da escola adotou medidas nada convencionais para tentar garantir a ordem e conquistar a confiança dos estudantes. Sem punições ou advertências, eles chegam a ser encorajados pelos professores a deixar a sala se não tiverem vontade de estudar. Podem retornar na aula seguinte se mudarem de idéia. Fumar também é permitido, desde que seja feito na área externa do colégio.
As medidas foram implantadas no início deste ano letivo para as turmas de 2º grau do período noturno. A orientadora educacional Dalva Dambros diz que foi a única maneira encontrada para manter um ambiente em que os professores pudessem trabalhar. Até o ano passado, Dalva convivia todas as noites com alunos embriagados, tráfico de drogas nas imediações do colégio e até ameaças de morte. Um dia chamei a polícia aqui para dentro. Comecei a receber telefonemas anônimos com ameças de morte. Era preciso mudar, eu não queria morrer, lembra.
Os alunos receberam a chance de exercerem liberdade com responsabilidade. Dalva conta que se o estudante não queria participar da aula, poderia sair, desde que não permanecesse nos corredores. A biblioteca, a quadra de esportes, lanchonete ou o laboratório de informática eram os locais que os alunos deviam se dirigir. No primeiro semestre, muitos deles eram proibidos de regressar, pois os professores suspeitavam que os alunos poderiam beber e retornar à sala embriagados. Como isso não ocorreu, os estudantes receberam um voto de confiança para regressar para outra aula assim que tivessem vontade.
A vice-diretora do Colégio Lamenha Lins, Hildanir Favoretto, diz que as medidas implementadas para controlar a disciplina desagradaram representantes da Secretaria de Estado da Educação. Mas é preciso fazer alguma coisa, alega Hildanir. O maior problema enfrentado no colégio é o alcoolismo. E não é somente entre os garotos que o vício está sendo constatado. Há um mês, duas adolescentes foram suspensas por tentarem entrar no colégio com uma garrafa de conhaque.
O trabalho educativo tenta reverter o quadro através de campanhas desenvolvidas pelos próprios alunos. Confecção de cartazes, concursos de redação, encenações e debates também fazem parte do esforço para afastar os estudantes das drogas. A orientadora Dalva Dambros acredita que punições aos estudantes são coisas do passado. A estratégia de hoje tem que ser diferente. Quanto mais você proíbe, mais desperta a sagacidade do adolescente, que está preparado para ir contra tudo, comenta.
Talvez um dos principais empecilhos que contribui para o consumo de álcool nunca poderão ser resolvidos pela direção. Trata-se da localização do Lamenha Lins. Nos arredores do colégio, há um supermercado onde os alunos compram vinho e cachaça. Um posto de gasolina a uma quadra de distância também comercializa bebidas aos alunos. Muitos são menores, mas não encontram qualquer barreira dos comerciantes para beber. Próximo à escola, deve ser inaugurado esta noite um novo bar com karaokê.Para garantir a ordem, a Escola Estadual Lamenha Lins permite que estudante fume e saia da sala quando está sem vontade de estudar
Kraw PenasDois ladosA proximidade de estabelecimentos comerciais faz com que os alunos não tenham dificuldade para comprar bebidas alcoólicas. Dentro da escola, cartazes tentam afastar jovens das drogas





