Alunas da rede pública se destacam em feira de ciências
Letícia e Lorena, de Londrina, são responsáveis por desenvolver creme dental sustentável e corredor verde na escola
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de abril de 2025
Letícia e Lorena, de Londrina, são responsáveis por desenvolver creme dental sustentável e corredor verde na escola
Heloísa Gonçalves 

Alunas dos colégios estaduais Vicente Rijo e Cívico Militar Professor Newton Guimarães, de Londrina, foram finalistas na 23ª edição da Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), realizada no mês passado, na USP (Universidade de São Paulo). O evento anual destaca soluções científicas para desafios globais, impulsionando novas gerações de cientistas saídos do ensino básico e técnico.
A Febrace é considerada a maior feira do setor no Brasil, tendo recebido 2.700 inscrições. Foram selecionados 300 finalistas, incluindo 19 projetos do Paraná, e 11 pesquisas de todo o País subiram ao pódio de primeiro lugar .
CREME COM COMPONENTES NATURAIS
Estudante do 2º ano do Ensino Médio do Vicente Rijo, na região central, Letícia Yoshitoni é autora do projeto “Elaboração de dentifrício com componentes naturais e acessíveis”, que concorreu na categoria Farmacologia. Aos 13 anos, em 2023, iniciou o desenvolvimento de um creme dental sustentável e com baixo custo de produção, sendo menos agressivo à saúde bucal do que as pastas industrializadas tradicionais.
O produto é composto de pó de juá, que garante a ação espumante, uma mistura dos óleos de coco e semente de uva, que são anticárie, além de mentol, para agir contra a placa e oferecer o gosto comum dos cremes dentais, e goma xantana, que atua como emulsificante natural.
Hoje, aos 16 anos, pesquisa como preservar a pasta já pronta. “Sendo tudo natural, é também muito perecível, então eu estudei um processo que poderia ajudar na conservação, a liofilização”, explicou Yoshitoni.
O método consiste na desidratação de produtos sensíveis sem danificá-los. Por meio de parceria com a UEL (Universidade Estadual de Londrina), a aluna teve acesso a um liofilizador, um equipamento laboratorial industrial, para realizar testes com o seu produto.
Como são necessárias extensas avaliações, ela ainda não pôde comprovar a eficácia total da ação conservante e espera fazer análises laboratoriais com equipamentos mais sofisticados e também com profissionais da área. "Eu gostaria de fazer parceria com alguma universidade, como a UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) ou a UEL novamente”.
Após a conclusão desta fase da pesquisa, ela pretende planejar comercialização da pasta seguindo a mesma temática sustentável dos componentes. “Pretendo tornar o produto mais palatável e atraente para o consumidor, tornar acessível para todos. Também vou realizar as análises que preciso antes de entrar no processo de patente, que é demandado pra conseguir chegar no comércio”, apontou.

Sobre a Febrace, Letícia disse que foi uma troca enriquecedora. "É um ambiente de valorização do ensino que eu, como participante, estimo que seja expresso para todo mundo”.
A jovem participa do NAAHS (Núcleo de Atividades de Altas Habilidades e Superdotação), ofertado pela Seed-PR (Secretaria da Educação do Paraná). Delean Lenardão e Joicy Quintella, orientadores da pesquisa, são professores de Salas de Recursos Multifuncionais organizadas pelo Núcleo, e auxiliam estudantes da rede estadual a desenvolver seus potenciais.
“Os alunos têm um enriquecimento curricular dentro da área que têm interesse, então pesquisam por conta própria. Eu não entendo nada de pasta de dente, mas orientamos se as fontes são fidedignas, como montar um artigo, entre outros tipos de orientação pedagógica”, esclareceu Quintella.
Lenardão considerou que a jovem cientista “usou todos os recursos educacionais possíveis dentro do projeto, então, o prazer aliado à dedicação fez a pesquisa ter todo o sucesso que teve”.
MICROCLIMA DE SALAS DE AULA
A outra finalista que representou a rede estadual de Londrina ,é Lorena Disseró, de 16 anos, aluna do 2º ano do Ensino Médio no Colégio Newton Guimarães, região central. Sob orientação do professor Saulo Gaspar, a estudante analisou o microclima de salas de aula da escola ao longo de 2024, colocando em prática uma proposta de corredor verde para atenuar as temperaturas em dias de calor.
A ideia partiu das constantes reclamações de seu irmão sobre o espaço de estudo, com avaliação de uma segunda sala para referencial teórico, utilizando o aparelho CO2 Detector. “Realizei as medições de temperatura, umidade e CO2 em duas salas, uma com a temperatura mais amena e na sala mais quente, no pátio da área externa. Por um mês, medi de segunda a sexta em quatro horários fixos diariamente”.

Com base nos dados, Lorena e seu orientador cultivaram 12 espécies de plantas no corredor ao lado da sala mais abafada, com o objetivo de melhorar o conforto térmico dos alunos e professores, além de mostrar como a vegetação pode auxiliar a diminuir temperaturas em ambientes urbanos.
As mudas foram doadas pelo Viveiro Municipal de Londrina, vinculado à Sema (Secretaria Municipal do Ambiente), e a compra do solo foi possibilitada pelo dinheiro arrecadado com uma rifa escolar. Disseró atestou a eficácia do projeto por meio de novas medições e relatos voluntários de alunos que estudam na sala.
A jovem pretende expandir a pesquisa, ampliando a vegetação para outras áreas do colégio. Ela disse ter se sentido inspirada pelo ambiente da Febrace, na qual concorreu na categoria Geografia, “por ver tantos outros alunos que têm a visão aberta para criar soluções criativas para problemas que enfrentamos”.

O orientador da pesquisa, Saulo Gaspar, é professor de Geografia e especialista em Altas Habilidades e Superdotação. Ele considera o desempenho de Lorena na feira um “reconhecimento de sua dedicação, potencial científico e busca constante do saber”.



