Aluguel de caçamba tem preço 'único'
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terça-feira, 02 de outubro de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Da cata de papel em carroças ao grande transporte de entulhos, o lixo que um dia foi desprezado hoje é mercado. Criada para frear a degradação ambiental, a atual legislação que impõe regras e obrigações sobre o destino de rejeitos acabou abrindo oportunidades de lucro para alguns setores. Quem nem sempre sai ganhando nessa história é o consumidor.
Ao contrário de materiais de uso doméstico como garrafas pet, latinhas e embalagens de papelão - cujo recolhimento é gratuito e até disputado entre ONGs e catadores independentes em Londrina - o descarte de entulhos de construção civil é dispendioso. O gerador que não dispõe de transporte próprio para levar o lixo da obra até o local adequado tem como opção mais viável a locação de caçambas.
Na hora de pesquisar preços, entretanto, o londrinense descobre que não tem muita escolha. A reportagem da FOLHA ligou para as 15 fornecedoras de caçambas que anunciam nas páginas amarelas do catálogo telefônico e recebeu o mesmo orçamento em 14 delas: R$ 70,00 o aluguel da caçamba grande (em geral, com capacidade para 5m3) e R$ 60,00 o da pequena (3m3). Apenas o período da locação variou, de 7 a 10 dias.
''Você não vai achar por menos. E se pedir para um carroceiro levar o entulho para você e ele for pego jogando em qualquer lugar, a multa é de R$ 529. Dá para você alugar um monte de caçamba'', alertou o representante de uma das empresas à suposta cliente. Na única transportadora onde houve pequena diferença no valor, o aluguel da caçamba grande foi cotado em R$ 65,00. Questionada por que todas as outras apresentavam o mesmo preço, a atendente comentou: ''Eles (os outros caçambeiros) fecham preço, né? Eu acho que é isso.''
O presidente da Associação de Transportadores de Entulho de Londrina (Atel), Cláudio Mendes, que representa 10 empresas do setor, se apressa em afirmar que não se trata de cartel. Segundo ele, os custos do serviço são muito semelhantes porque todas as empresas depositam o lixo de construção no mesmo local, a pedreira do Jardim Ideal (Zona Leste). O aterro é particular e gerenciado pela própria Atel, que cobra uma taxa ambiental por cada despejo.
''Somos interdependentes, mas ninguém combina preço. O problema é que com o preço do diesel, não dá para fazer por menos. E se subir o preço, o cara sabe que não vende o produto'', argumenta.
Fazendo a mesma pesquisa em Maringá, a reportagem encontrou preços distintos entre as empresas de caçamba e o menor aluguel por R$ 55,00 a caçamba grande. Levando esse valor em conta, a economia em relação ao preço praticado em Londrina seria de 22% para um mês de aluguel. Mendes ressaltou que naquele município é o setor público que administra o aterro de construção civil. ''Se aqui também fosse assim, poderíamos baixar os preços. Mas arcamos com tudo'', reclama.
Além do aluguel da pedreira e o salário dos funcionários, a associação também paga pela compactação do entulho, que vai sendo usado para aterrar a área de oito alqueires. Segundo o presidente, uma maneira de baratear os custos do descarte ao consumidor seria a implantação de ''áreas de transbordo'' descentralizadas em todas as regiões da cidade.
''Apresentamos esse projeto ao prefeito no início de sua primeira gestão, mas ele vetou alegando que iriam se criar novos lixões. Do jeito que está o prejuízo ao meio ambiente é muito maior, pois o pequeno que não pode pagar pelo transporte joga o entulho em qualquer lugar. Por isso temos 131 bota-foras clandestinos em Londrina hoje'', reflete.
O diretor de operações da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Fábio Reali, confirma que o montante de entulho despejado irregularmente na cidade ainda é grande, algo em torno de 25% do que é produzido. ''O Município identificou 56 bota-foras em Londrina. A multa pelo despejo irregular pode chegar a R$ 1,5 mil, e até mais se for em área de preservação ambiental'', avisa.
Ele diz que não pode interferir nos preços cobrados pelos transportadores de entulho, por se tratar de relação de consumo, e reafirma que a responsabilidade e o custo do descarte pertence, por lei, ao gerador. ''Hoje, com toda a normatização, o lixo virou um grande mercado. Mas nesse caso não podemos intervir.''


