''Todos os dias somos mal tratados. Quanto maior o poder aquisitivo do dono da casa, maior é o nosso problema. Recentemente, uma médica nos xingou porque pedimos para dar uma olhada no vaso de uma planta que estava na sacada da casa dela''. O desabafo sai da boca de Cristina Gomes Torquato, coordenadora de uma equipe de combate a endemias, atuando em uma área da região Oeste, que abriga alguns dos bairros mais chiques de Londrina.

O relato de Cristina sintetiza uma situação que é contada por diversos outros agentes da Secretaria de Saúde e também por pessoas que trabalham como pesquisadores: nos bairros mais ricos, a receptividade da população é muito menor do que nas regiões mais humildes da cidade.

''No nosso caso, o que acontece é que os mais abastados acham que dentro de suas casas nunca vai haver criadouros para o mosquito. Eles sempre dizem para nossos agentes irem vasculhar as casas das periferias'', relata Luiz Alfredo Gonçalves, coordenador de endemias da Secretaria de Saúde, revelando uma situação de absoluto preconceito.

De fato, o trabalho dos agentes não é nada fácil nos bairros que concentram casas imponentes. Esta semana, a reportagem da FOLHA acompanhou uma equipe em serviço na rua Voluntários da Pátria, no Jardim Andrade (Zona Oeste). Em seis residências os agentes sequer foram atendidos, apesar de sinais claros - como janelas abertas e carros na garagem - de que havia alguém em casa.

Apenas dois moradores permitiram a entrada dos agentes. Não é à toa que essa mesma equipe precisou de mandatos judiciais para poder vistoriar duas residências no último mês.

Um daqueles que permitiu a vistoria em sua casa, o administrador Luciano Rezzi, atribui ao medo, à sensação de insegurança, o fato de as pessoas com mais posses ficarem reclusas. ''Em nosso bairro já ocorreram várias situações de horror. Por isso, as pessoas se fecham em seu canto, ficam com medo''. Mesmo assim, ele não concorda com o fato de seus vizinhos não receberem os agentes. ''Infelizmente, as pessoas que detém maior acesso à informação são as que menos contribuem com o trabalho do pessoal da dengue'', lamenta.

Coordenador do Ímpar Instituto de Marketing, Cláudio Luiz Chiusoli concorda com Rezzi. ''Percebemos que existe diferença de tratamento para com nossos pesquisadores, de acordo com o poder aquisitivo dos moradores de cada bairro. Isso acontece porque os mais ricos se sentem intimidados, vivem com medo de assaltos. Além disso, estão sempre ocupados, correndo, pois exercem profissões que lhes tomam mais tempo'', opina Chiusoli.

Convidado a analisar essa diferença do ponto de vista sociológico, o professor Luciano Verdicchio diz que as pessoas tendem a agir cotidianamente, obedecendo a ritos.

''Nessa perspectiva, podemos perceber que as pessoas de baixa renda reconhecem naqueles que batem às suas portas, primeiramente, trabalhadores assim como eles próprios e, muitas vezes vêem também esses pesquisadores e agentes como representantes das autoridades que poderão, em algum momento, melhorar a sua qualidade de vida. Por outro lado, as pessoas de melhor condição econômica e social vêem esses trabalhadores como 'abelhudos', invasores de privacidade. Isso porque eles têm uma qualidade de vida elevada, individualizada, pela qual pagam. Se o rico precisar dar satisfação à alguém será para o 'Serviço de Atendimento ao Consumidor'. Nota-se a racionalidade e a burocracia antes da emoção'', destaca o professor.

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