Tirar sonecas durante o dia, comer alimentos calóricos no jantar e a falta de atividades diurnas são hábitos que interferem na qualidade do sono à noite em qualquer idade. Mas na terceira idade o transtorno é pior, pois o processo de envelhecimento traz uma série de mudanças no padrão de rotina das pessoas.
Como exemplos, a aposentadoria, a diminuição de atividades físicas e o uso de medicamentos, que também alteram o padrão de sono e tornam comuns as queixas sobre insônia, sonolência diurna, falta de memória e o sono ''picado'' durante a noite.
É o caso do advogado aposentado José Castelo, de 77 anos. Por conta de uma doença e, consequentemente, o uso de medicamentos, Castelo acorda pelo menos uma vez na madrugada. ''Acordo toda noite para ir ao banheiro. Faz 20 anos que meu sono não é mais o mesmo'', revela ele, ao concordar que os distúrbios na hora de dormir são comuns à idade. ''A vitalidade não é mais de um jovem e, sabendo disso, tento manter bons hábitos. Hoje, me alimento melhor, leio um livro para acalmar e também faço uso de chá de camomila e erva-doce antes de deitar'', diz.
A neurogeriatra Tamara Checcacci, do Hospital Federal da Lagoa, vinculado ao Ministério da Saúde, afirma que as alterações no sono também podem ser sintomas peculiares de doenças, como Mal de Parkinson, problemas respiratórios e sobrepeso. A especialista defende que é possível resolver o problema sem interferência medicamentosa.
''Devemos tentar corrigir essa questão da insônia de uma maneira saudável. Como, por exemplo, indo deitar mais tarde, não ter essa preocupação de dormir um número grande de horas e não considerar que é uma doença com necessidade absoluta de medicação. É possível organizar esse sono se houver paciência'', observa a especialista.
Higiene
O primeiro passo para recuperar o período de descanso completo é cuidar da chamada ''higiene do sono''. Para isso é preciso respeitar os hábitos e a peculiaridade de cada um. ''A redução do tempo dormindo pode ser natural, da mesma forma de que uma criança pequena dorme um número grande de horas, e com o passar do tempo não se tem mais essa necessidade'', elucida Tamara. ''A questão do sono é muito individual, não há uma tabela de horas a ser cumprida. A pessoa tem que se sentir bem, mesmo com o sono reduzido. Cada um tem o seu ritmo biológico, e a gente tem que respeitar nossa natureza'', completa.
O médico aposentado Miguel Alves Pereira, 83 anos, garante que nunca teve problemas relacionados ao sono. Ele conta que mesmo quando precisava levantar de madrugada para algum atendimento, não sentia necessidade de dormir durante o dia. ''Meu corpo precisa de sete horas de sono. Esse tempo é suficiente para eu me sentir bem disposto no dia seguinte'', comenta.
Naturalmente, o sono nessa faixa etária torna-se mais leve e geralmente não ultrapassa oito horas diárias. Muitos idosos têm o hábito de dormir cedo e também acordam mais cedo por conta de uma rotina de trabalho adotada durante anos. A ansiedade exagerada de querer dormir de qualquer maneira, portanto, é desnecessária. ''A gente tem que colocar de uma forma que, se um dia não dormir bem, não vai acontecer nada de extraordinário, pois não vai ter nenhum compromisso que obrigue a isso'', coloca a neurogeriatra.
Ainda de acordo com a especialista, o idoso tem um sono diferenciado por conta das modificações cerebrais no envelhecimento e pela restrição natural de atividades físicas. ''Muitas vezes o sono é decorrente de um cansaço ao longo do dia. O idoso tem uma tendência a uma atividade menor, com a possibilidade de tirar pequenas sonecas de dia. Tudo isso interfere no sono da noite'', explica.
Mas também há de se considerar que o sono depende das condições satisfatórias, como silêncio, baixa iluminação, cama confortável e a disciplina de somente deitar se estiver com sono. Quem entende perfeitamente isso é a dona de casa Marlene Bley, de 60 anos. ''Moro em uma rua movimentada de bares e tenho certeza absoluta que meu sono piorou com a mudança de endereço. Hoje, durmo bem na primeira hora, mas depois acordo de três a quatro vezes na madrugada. O barulho me incomoda muito'', revela Marlene, que nunca procurou um médico para cuidar do distúrbio. ''Não gosto e nem quero tomar remédio para dormir'', salienta.
Medicamentos
Para Tamara, o uso de medicamentos pode ajudar a melhorar o padrão de sono. Ela afirma que existem medicamentos modernos que atuam melhorando o humor. ''Eles dão ótimos resultados a curto, médio e longo prazos para a qualidade do sono. Mas se mesmo seguindo todas as instruções essa insônia permanecer, o melhor é procurar um profissional habilitado para melhorar esse sono'', esclarece.
Portanto, não durma no ponto. O sono precisa ser visto como uma questão multidisciplinar. É preciso antes identificar a causa da insônia, se é a falta de atividades, problemas familiares, doenças crônicas, e assim procurar o especialista que irá lhe ajudar a melhorar sua qualidade de vida. (Com informações do Ministério da Saúde)

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