Almoço solidário atende 400 pessoas
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
Natal é tradição. E solidariedade também. É o que se aprende na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, na Vila Siam (Zona Leste de Londrina), que realiza há 30 anos, no dia de nascimento de Jesus, um grande almoço para a população de rua. Além dos números objetivos - 190 kg de carne e frango, 40 kg de arroz e 35 kg de macarrão -, a ação é marcada pela gratidão de quem enfrenta momentos difíceis na vida. Desde o início da manhã, uma kombi da paróquia percorre bairros carentes e locais onde, sabidamente, se recolhem os chamados excluídos.
Em comum, a FOLHA pôde perceber que se tratam de pessoas nascidas na zona rural, sem alfabetização, escassos laços familiares e frequentes problemas de saúde. Em comum também a humildade - às 11 horas já se agrupam, em silêncio, no estacionamento da igreja.
O tratorista João Ferreira da Silva, 43 anos, esteve ontem pela primeira vez no almoço solidário. Ele conta que mora num mocó em Londrina desde que veio do Distrito de Irerê - onde ficaram a ex-esposa e os filhos. Sem emprego, vive de bicos. Com um olho lacrimejante o tempo todo, diz que está enxergando pouco e que encontra dificuldades para obter assistência médica. ''Eu fui no posto (de saúde), mas disseram que preciso de um especialista. Daí, não consegui mais porque sozinho não enxergo.'' Para participar do almoço, Silva foi transportado pela kombi da igreja.
O ex-vendedor ambulante de sorvetes, José da Silva Barreto, 61, já frequenta o almoço solidário há alguns anos. Morando sozinho em Londrina desde a década de 70, conta que também nasceu na zona rural e hoje mora em um ferro-velho, onde faz as vezes de vigia em troca de teto. A grande decepção é que, cinco meses atrás, torceu o pé e não pôde mais correr a cidade com seu carrinho de sorvete. Atualmente, recebe apenas o auxílio idoso de R$ 100 e lamenta que a aposentadoria por tempo de serviço ainda levará quatro anos para sair. Sobre os filhos, que ficaram com a ex-mulher, diz que prefere não procurá-los. ''Cresceram longe de mim, nem me reconhecem mais.''
Outra frequentadora assídua do almoço é a ex-catadora de papel Luzia Gonçalves Pereira, uma mineira de Montes Claros que chegou a Londrina quando a cidade ''ainda era uma vila''. De fala rápida e em tom quase inaudível, conta desconhecer o ano de nascimento - ''não sei a idade direito não'' - e que mora com um irmão, no jardim Santa Rita. Como os demais convivas, dona Luzia também foi buscada em casa pela kombi da paróquia.
Família
A preparação do almoço solidário tem seus prós e contras, conta Gelson Gil, um dos organizadores. Segundo ele, para cuidar dos outros, a própria família acaba ficando em segundo plano. Mas, apesar disso, Gil garante que vale a pena. ''A gente deixa a família em casa no dia de Natal, mas consegue 'fazer' uma família para quem não tem. É um bem ao próximo que faz bem à gente também''.
Além da carne, arroz e macarrão, a refeição conta com salada, farofa, refrigerante e sobremesa - tudo doado pelos paroquianos. Em 2007, o evento atendeu aproximadamente 400 pessoas.


