Almir vence desafios
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quinta-feira, 22 de abril de 1999
Josoé de CarvalhoO universitário tem a ajuda do computadorTelma Elorza 
O estudante Almir Rogério dos Santos, 21 anos, é cego. Nasceu assim, com um problema de falta de pigmentação na retina. Seu nervo ótico e córneas, em perfeito estado, não identificam as imagens. Só distingo claro e escuro. E, de vez em quando, quando me concentro muito, percebo algum objeto grande perto de mim, mas não dá para reconhecer o que é, explica. Não existe ainda uma cura ou transplante para o seu caso. Os médicos dizem que, talvez, no futuro, possa vir a ser desenvolvida algum tipo de operação, mas ainda vai demorar muito tempo, conforma-se.
Apesar de sua limitação física, Almir Rogério não é uma pessoa amarga. Pelo contrário. A cegueira não o impede de viver a vida normalmente. E melhor ainda, de aproveitá-la e curtir todos os momentos. Meus colegas de faculdade às vezes se surpreendem de me encontrar em algum barzinho. Acho que eles pensavam que, por não enxergar, eu ficava em casa trancado, me lamentando, ri. Nada mais errado. Almir é frequentador assíduo dos bares countries da cidade. Vou sempre à Kawale e outros, onde a gente pode dançar, conta. Sim, ele gosta de dançar, mas não é muito bom na atividade, avisa. Dá para o gasto.
Almir está no terceiro ano da faculdade de administração de empresas, na Unopar. Por muito tempo, quis fazer direito na UEL. Mas o vestibular era muito concorrido. Tentei três vezes. Em janeiro de 1997, surgiu a idéia de tentar também a Unopar. Administração foi o que me mais agradou, entre todos os cursos oferecidos. Tentei e passei. E não me arrependo, estou gostando muito do curso, afirma.
Até o momento, não parece ter enfrentado grandes dificuldades em levar a faculdade. A gente tem que fazer adaptações, observa. Ele reconhece, por exemplo, que não tem muita participação ativa nos exercícios que são propostos em sala de aula. Fico mais escutando do que participando, diz. Mas nada o desanima. Vou me formar no próximo ano e fazer alguma especialização na área, prevê.
Josoé de CarvalhoDurante as aulas fico mais escutandoSeu maior aliado nos estudos é um minigravador que leva para todas as aulas. Eu presto muita atenção nas aulas e gravo tudo. Depois ouço novamente em casa, diz. Se o assunto, porém, é meio complicado, Almir não se aperta. Pede o caderno de algum amigo emprestado e manda digitar no seu computador. Aí imprimo tudo em braile e estudo por ali, conta. Ele contratou um rapaz só para fazer estes tipos de digitação. O computador, aliás, é outro instrumento eficaz em suas mãos. Com um programa especial chamado Virtual Vision, Almir se mantém em contato com o mundo. O programa fala o que está na tela do monitor, explica.
Até pouco tempo atrás, porém, ao invés de um gravador, Almir levava uma pequena máquina de escrever em braile para as aulas. Até o segundo colegial, eu datilografava tudo em sala. Mas o pessoal começou a reclamar do barulho. Ela é mesmo meio barulhenta, reconhece. Agora, a máquina é só usada na faculdade em dias de provas.
As provas, aliás, requerem uma certa mão-de-obra para serem aplicadas a Almir. O professor manda as provas para o Instituto Londrinense de Instrução de Trabalho para Cegos. Lá uma pessoa datilografa em braile e a manda de volta. Aí, no dia, eu faço a prova com a minha máquina. Depois o professor a manda de volta para o instituto onde alguém faz a transcrição à caneta. Volta novamente para a faculdade, onde o professor faz a correção. conta. Talvez por isso, a última prova que fez foi oral. Mas eu não gostei muito não. Parece que fica mais difícil responder, sem ter algo para ler e analisar. Mas tudo é uma questão de treino e de adaptação.
Discriminação ele diz que enfrenta, sim. Mas, tranquilamente, sem ressentimentos. Eu já estou meio calejado. Há alguns anos, quando era mais novo, ficava chateado. Agora, não. É esta a reação que espero, afirma. O maior problema acontece quando conhece novas pessoas. Parece que elas têm medo de chegar até mim. Talvez pensem que vou maltratá-las, sei lá. A maioria dos novos conhecidos, diz, fica constrangida quando está perto dele. Com a convivência, porém, isso acaba mudando, assegura.
A maior dificuldade para Almir é na hora da paquera. Seria bom poder ver quem estou paquerando, né?, brinca. A cegueira, porém, não o impede de conquistar alguma garota ou de ser conquistado por ela. É tudo na base da conversa, diz. Como a beleza física não importa muito para ele, a inteligência é fundamental. A menina tem que ser inteligente, carinhosa e compreensiva com minhas limitações, me respeitando como eu sou, ensina.
Se, por um lado, Almir enfrenta os limites de sua deficiência e as dificuldades que isto lhe traz, por outro está bem servido. Almir tem duas mães - a natural e a adotiva - a seu lado, lhe dando apoio e incentivo. A mãe natural, Conceição dos Santos, trabalha na casa da adotiva, Rosalina Franciscon, diretora do Instituto Londrinsense de Educação para Surdos (Iles), que o adotou legalmente quando tinha 20 dias. Juntas o criaram para ser independente. Para mim foi ótimo. Mas as broncas vieram em dobro também, brinca.
Embora preparado para enfrentar o resto da vida na escuridão, Almir Rogério não perde a esperança de, um dia, poder enxergar. Gostaria de aproveitar esta natureza que, dizem, é maravilhosa. Ver o rosto das pessoas que amo. E dirigir um carro, sonha. Mas, se não for possível, também está bem. Eu nasci assim. Se perdesse a visão quando tinha 10 ou 15 anos, poderia ser revoltado. Para mim, é normal ser assim. Não conheço outra realidade.
PERFIL
Nome: Almir Rogério dos Santos
Idade: 21 anos
Profissão: Estudante universitário
Sonho: Poder enxergar
Receita: Apesar de sua limitação, aproveita a vida


