Aliviar a dor para morrer em paz
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quarta-feira, 07 de outubro de 2009
Caroline Vicentini<br>Reportagem Local 
Duas vezes por semana uma equipe multidisciplinar do Hospital do Câncer de Londrina (HCL) visita a casa de pacientes em estágio paliativo da doença, ou seja, aqueles que estão fora das possibilidades terapêuticas de cura. Para quem recebeu a notícia de que o tratamento não surte mais efeito e a morte será inevitável, uma equipe que inclui médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem, psicólogo, assistente social, nutricionista, fonoaudiólogo e farmacêutico, busca alívio para as dores do corpo e da alma, imprimindo um tratamento humanizado ao tempo que resta ao doente.
''O foco do cuidado paliativo é o alívio e a prevenção dos sintomas em todos os aspectos (físico, psíquico, social e espiritual), proporcionando maior qualidade de vida ao paciente'', explica o paliativista Luis Fernando Rodrigues, responsável pela Equipe Interdisciplinar de Cuidados Paliativos Oncológicos do HCL.
Rodrigues é o idealizador do serviço de Atendimento Domiciliar, implantado há pouco mais de um ano no HCL. O atendimento é voltado a pacientes residentes em Londrina e Cambé, encaminhados pelas clínicas de especialidades, e com grande dificuldade de se deslocar ao hospital. O serviço só é oferecido quando há desejo do paciente e anuência da família. Antes de recomendar a transferência para a residência, os profissionais avaliam se há cuidadores disponíveis e se o domicílio oferece condições para a permanência do doente.
Além do conforto do atendimento em domicílio e a possibilidade de ficar junto da família, esse serviço também permite uma relação médico-paciente mais humanizada. ''O paciente se sente mais amparado e o vínculo que se estabelece é maior. A confiança que ele deposita na equipe é a parte mais gratificante do trabalho'', revela Rodrigues. Além da função humanizadora, o objetivo do atendimento domiciliar é otimizar a utilização dos leitos hospitalares e reduzir o número de reinternações. Segundo o paliativista, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de um milhão e meio de pessoas morrem anualmente no mundo vítimas de doenças crônicas; a maioria em situação de muito sofrimento.
Recebendo os cuidados paliativos em casa desde o final de junho, a cozinheira Emília Aparecida Barreiro Caetano, 60 anos, ressalta o conforto de ter as dores aliviadas em seu quarto. ''Já aconteceu de chegar no HCL ao meio dia e ir embora somente às 17 horas. Agora está mais fácil'', afirma. Cuidada também em suas necessidades emocionais, Emília confessa que a tristeza e a ansiedade são aliviadas quando a psicóloga a escuta. ''Estamos mais tranquilos porque agora ela não está mais sofrendo tanto'', acrescenta o marido de Emília, o eletricista de automóveis Mário Caetano. Segundo o paliativista Luis Fernando Rodrigues, em uma escala de avaliação de sintomas físicos e emocionais, cerca de 90% dos que receberam atendimento domiciliar tiveram alívio significativo das queixas. Atualmente, 18 pacientes são atendidos pelo serviço.
Ajudar a família do paciente a lidar com a doença e prepará-la para o luto são algumas das questões trabalhadas pela equipe de cuidados paliativos. ''O câncer ainda é sinônimo de morte e como todos estão em sofrimento intenso é comum os integrantes se isolarem. Tento reverter esta ''conspiração do silêncio'' oferecendo a minha escuta para amenizar a angústia diante da morte'', explica a psicóloga da equipe, Michelle Moreschi. Aproveitar a proximidade da família para que possíveis pendências e conflitos sejam resolvidos também é um dos objetivos da psicóloga. ''Quando se aceita o fim todos conseguem se despedir e o paciente morre em paz'', comenta.


