Alimentos saudáveis desde cedo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Embalagens coloridas e sedutoras que envolvem alimentos saborosos, de consistência agradável e... quase nada de nutrientes. Disfarçados de comida para crianças, produtos industrializados como sobremesas lácteas, massas instantâneas, sucos de caixinha, biscoitos e todo tipo de guloseimas contêm excesso de açúcar e gordura e, por isso, devem ser consumidos com muita moderação por meninos e meninas em fase de crescimento.
Os apelos da publicidade infantil, entretanto, conseguem ser mais fortes que a preocupação com a boa saúde, convencendo até mesmo os pais a oferecerem alimentos industrializados para crianças pequenas. Uma pesquisa realizada pela disciplina de Nutrologia do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 270 pais de crianças frequentadoras de berçários de creches públicas e filantrópicas da capital paulista, constatou que 67% dos pais dão esse tipo de produto aos filhos antes do primeiro ano de vida.
O estudo aponta, ainda, que a oferta de alimentos ricos em açúcar refinado, gordura e até mesmo refrigerantes começa antes dos três meses de idade. As consequências dessa prática são preocupantes. Conforme a pediatra Suely Delattre Cícero, de Londrina, a deficiência ou excesso de nutrientes decorrentes da má alimentação podem predispor as crianças a doenças crônicas como obesidade, arterosclerose, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e osteoporose.
Por isso, especialistas são categóricos ao defender a amamentação exclusiva até os seis meses de idade e, depois disso, introduzir gradativamente outros alimentos, com manutenção do aleitamento materno até pelo menos os dois anos. O leite de vaca, de acordo com a médica, deve ser preferencialmente consumido após essa idade e em quantidade máxima de 700 mililítros por dia. ''A ingestão de leite de vaca antes dos seis meses propicia o aparecimento de doenças alérgicas. A oferta em excesso, mesmo entre os mais velhos, pode causar problemas como sobrecarga renal e excesso de gordura.''
A ingestão precoce, continuada e excessiva de alimentos altamente calóricos e de baixo valor nutricional está associada ao abandono do aleitamento materno e ao baixo consumo de frutas, legumes, cereais e hortaliças. A pediatra lembrou que outra pesquisa realizada na capital paulista constatou que 70% das crianças investigadas apresentavam anemia decorrente da deficiência de alimentos ricos em ferro. ''O ferro só é menos importante que o oxigênio para o nosso organismo. Sem ele, as pessoas morrem devagarzinho.''
Para Suely, a oferta de alimentos inadequados às crianças decorre, ainda, de uma questão cultural. ''No Brasil, as mães associam a ingestão de alimentos doces ao afeto. Se deixam de oferecer, acreditam que não estão cuidando direito dos filhos'', salientou, lembrando que essa prática é nociva para a formação dos bons hábitos. ''Se o bebê recebe açúcar como compensação nos dois primeiros anos, será um adulto que não conseguirá dissociar o consumo do doce para aliviar os momentos de angústia.''
A médica acrescentou que os filhos espelham-se nos pais, que devem alimentar-se bem para dar o exemplo. No dia a dia do consultório, ela observa que muitos pais e mães com sobrepeso chegam para consultar os filhos e, quando informados de que a criança enfrenta obesidade, surpreendem-se. ''Nossa cultura ainda relaciona gordura a indivíduos saudáveis.''


