Alguns dos antigos tinham ritos religiosos que envolviam prostituição
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 1998
José Fernando da Silva 
Os Babilônios tinham uma lei classificada por Heródoto (século IV a.C.) de vergonhosa. Toda mulher que nascia no país era obrigada, uma vez na vida, a ir ao templo de Vênus para entregar-se a um estrangeiro. Lá, no recinto sagrado, pobres e ricas ficavam isoladas em alas separadas por cordas. O estrangeiro passeavam por entre as alas e escolhiam uma delas. Quando uma mulher tomava um lugar ali, não podia voltar senão depois que algum estrangeiro lhe atirasse dinheiro aos joelhos e tivesse relações sexuais com ela, fora do recinto sagrado.
Era preciso que o estrangeiro, ao atirar-lhe o dinheiro, falasse: Invoco a deusa Milita (os assírios davam esse nome à Vênus). Qualquer que fosse a quantia, a mulher não poderia recusar o parceiro. Finalmente, depois de cumprir seu dever com a deusa, entregando-se ao forasteiro, a mulher retornava ao lar. Depois disso, ela não se deixaria seduzir por dinheiro algum. As que possuem um belo corpo ou um belo rosto não fazem longa permanência no templo, conta Heródoto, mas as feias esperam, às vezes, três ou quatro anos, antes que possam cumprir a lei.
Os egípcios, primeiro povo a afirmar que a alma do homem é imortal e que, morto o corpo, a alma transmigra para o corpo de vários animais até voltar para o corpo de um homem, num ciclo de 3 mil anos, também foram os primeiros que, por princípios religiosos, proibiram o comércio sexual com as mulheres nos lugares sagrados. Todos os outros povos, com exceção deles e dos gregos, agiam de modo contrário, ou seja, permitiam práticas sexuais em seus templos. O argumento era muito simples, escreve Heródoto: É comum verem-se animais e pássaros realizando o coito em lugares consagrados aos deuses. Se esse ato fosse desagradável à divindade, os próprios animais não o praticariam em tais circunstâncias.
A prostituição era uma prática tolerada entre os egípcios. O faraó Queóps, que reinou durante 50 anos, gastou quase toda a prata do reino para pagar as contas da construção da pirâmide que leva seu nome. Sem recursos, Queóps lançou mão da própria filha, fazendo-a prostituir-se num lupanar e ordenando-lhe tirar de seus amantes certa soma de dinheiro. Dedicada filha, a princesa não só executou as ordens do pai, como quis deixar, ela própria, um monumento. Para isso, pediu a cada um dos que iam vê-la uma pedra, e foi com elas que se construiu a pirâmide que se encontrava, na época de Heródoto, entre as outras três que conhecemos.
Heródoto cita várias cortesãs que fizeram fortuna no Egito e na Grécia. Uma das mais interessantes é Ródope, originária da Trácia e que foi escrava junto com Ésopo, o fabulista. Ródope acumulou riquezas consideráveis para uma mulher de sua classe. Não tendo como mandar construir uma pirâmide e desejando deixar na Grécia algo que transmitisse seu nome à posteridade, ela mandou fazer grandes lanças de ferro para enfeitar o templo de Delfos.
Mas nem sempre a prostituição tinha relação com a religião. Cada povo procurava seguir alguns costumes, estranhos para nós em nossos dias. Os Masságetas desposavam cada qual uma mulher, mas faziam uso comum das esposas. Na antiga Líbia, os Ardimáquidas apresentavam as filhas ao soberano, no dia do casamento delas. A que caía nas graças do rei não voltava ao lar senão depois de ter concedido seus favores ao rei.
Os Nasamões casavam-se e, na festa de núpcias, as mulheres concediam favores a todos os convivas, recebendo de cada um deles um presente trazido de casa. Além disso, os Nasamões desposavam várias mulheres e tinham relações com elas publicamente. Seus vizinhos, os Gindanes, diziam que suas mulheres traziam no tornozelo tantos anéis de pele quanto os homens com os quais já tinham se relacionado sexualmente, e a que ostentava maior número de anéis era a mais estimada, por ter-se feito amar por maior número de homens.
Os Auseses, povo dominado pelos gregos, tinham mulheres em comum. Elas não moravam com eles e eram possuídas à maneira dos animais. Os filhos são criados pelas mães e quando crescem são levados à assembléia dos homens, de três em três meses. Aquele com o qual a criança mais se parece é considerado seu pai, descreve Heródoto.
Há também exemplos de compaixão entre esses povos já desaparecidos. Os Citas faziam leilão público de suas mulheres em idade de casar. Cada uma era vendida por um lance mínimo. A quantia que ultrapassava o valor estipulado era guardada num caixa comum. Após o leilão, as feias eram dadas em casamento com este dinheiro que sobrava. O novo marido recebia o dinheiro e a esposa com o compromisso de nunca maltratá-la.


