Algumas mudanças agilizam processo
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de janeiro de 1999
Lúcio Horta 
Às 5h50 do dia 27 de janeiro, uma quarta-feira, a fila em frente à Subdelegacia Regional do Trabalho já estava longa. Cerca de 30 pessoas se aglomeravam do lado do muro do prédio aguardando a tão esperada senha. Todos também torciam para que a garoa fina não se transformasse em chuva: no dia anterior, São Pedro castigou a cidade e a chuva forte provocou morte e destruição.
Não fossem as chuvas de ontem, a fila hoje certamente estaria maior, previa André Marin, 22 anos, que chegou ao local às 4h45 e era o primeiro da fila. No dia anterior, Marin chegou às 5h30 e ficou desanimado com a fila, que dobrava o quarteirão. Deu ré no automóvel e foi embora.
Mas algumas coisas mudaram entre os dias 19 e 20, quando a reportagem esteve pela primeira vez na fila da carteira de trabalho, e o dia 27, menos de 24 horas depois da conversa com Hélio Santos, chefe-administrativo da subdelegacia do trabalho em Londrina. A primeira diferença observada foi que o próprio Santos chegou ao órgão pouco antes das 8 horas para fazer a distribuição da senha. Das outras vezes, quem distribuiu foi um segurança de uma empresa terceirizada.
Santos fazia a triagem e entregava as senhas, ao lado do segurança. Desta vez, também, estavam disponíveis 60 senhas, independentemente se o requerente queria fazer a primeira ou a segunda via da carteira de trabalho. Antes, eram 25 para cada categoria. Também ao contrário do que foi observado nos dias 19 e 20, no dia 27 o cidadão que não estava com a documentação completa era orientado a voltar ao órgão, com os documentos completos, no período da tarde. Eles recebiam a garantia de que seriam atendidos.
E foram muitos os que acabaram barrados na hora de apresentar os documentos. A maioria dos problemas ocorria por causa da fotografia 3x4, que tem alguns pré-requisitos: o fundo da foto tem que ser branco, a pessoa não pode estar usando camiseta de alça, franja na testa é proibido, sorriso - mesmo que seja um simples sorrisinho - nem pensar. Hélio Santos garantiu que todas as pessoas que procuram o órgão atrás de informações são alertadas sobre os documentos, inclusive a fotografia 3x4.
Mas não foi o que disse Renata Menezes Hiromoto, 23 anos, presente na fila da madrugada do dia 27. Um dia antes, ela foi pessoalmente à subdelegacia pedir informações sobre o que precisaria levar para fazer a Carteira de Trabalho. Falaram em foto e identidade, mas não que a foto tinha que ser de um jeito ou de outro, lamentou. Resultado: a fotografia em que aparecia com uma blusa de alça foi reprovada na triagem. Transtorno, porque ela teve que sair correndo para poder tirar outra foto, com as características exigidas, e que ficasse pronta no dia. Fui mal orientada.
Assim como nos dias anteriores, na última quarta-feira ninguém da fila deixou de reclamar sobre o desconforto que é tirar o documento. Quando a gente fica parado, o tempo não passa, era a frase mais ouvida. André Marin, por exemplo, o primeiro da fila, conta que chegou cedo porque foi informado que só iriam distribuir 30 senhas para carteiras novas. Ontem (terça-feira) achei que não fosse conseguir, por causa do tamanho da fila, e fui embora. Hoje (quarta), para garantir, cheguei mais cedo, explicou.
André é estudante da UEL e precisa do documento para ser registrado no escritório de arquitetura em que está trabalhando. É um absurdo uma cidade desse tamanho limitar tanto o número de pessoas que será atendido. Deviam atender em tempo integral e não limitar. E ainda disseram que terei que esperar 40 dias para a carteira ficar pronta. É um absurdo!, reclamou.
Atrás de André Marin estava Milene Paula Pedreira, 17 anos, que também pretendia fazer a carteira pela primeira vez. Ela chegou ao local às 5h20. O pessoal sempre fala que aqui é cheio, que tem que chegar cedo senão não é atendido. Mas deveria ser mais fácil.
O casal Terezinha Dias Vieira, 59 anos, e Luiz Vieira, 65, também madrugaram e chegaram à subdelegacia do trabalho às 5h30. Ambos estavam pedindo a renovação da carteira. Já sabia que tinha que chegar cedo para pegar senha. Mas assim, tendo que madrugar para entrar na fila, é difícil. Eles deveriam atender todo mundo, a partir das 8 horas, e também à tarde, disse Terezinha. O marido emendou, com ironia: Deve ser excesso de trabalho.
Alice da Luz, 53 anos, bem que tentou renovar a carteira de trabalho quatro meses atrás. Mas tinha muita gente na frente e não sobrou senha. Como ela entra no serviço às 6h10, nem tentou voltar para a fila nos dias e meses seguintes. Agora que estou em férias eu vim tentar novamente. Mas é difícil, tive vizinha que chegou a posar aqui para conseguir.
Situação pior viveu Sidnéia Aparecida de Oliveira da Silva, 22 anos. Ela já tem um emprego quase garantido num restaurante da cidade, mas precisa da Carteira de Trabalho para começar a trabalhar. Já vim três vezes e não consegui. Uma vez não tinha vaga. Na outra faltava documento. Depois faltava outro documento, o CPF. Agora liguei a semana passada e disseram que mudou, só precisa de certidão de nascimento. Vamos ver se dá.
Além de acordar de madrugada, Sidnéia precisa carregar com ela os dois filhos, um de três anos e outro de nove meses. A maior só sai de casa chorando. Dá dó, disse, com o filho menor no colo. O outro estava no carro com o marido. Para Sidnéia, ao invés de dificultar, o governo deveria arrumar uma forma de facilitar o acesso dos trabalhadores ao documento.


