Tristeza foi o que a professora de Ibiporã, Silvia Aparecida Moya, sentiu na noite de anteontem ao constatar que ajudar o próximo, muitas vezes, não é exatamente uma prioridade de órgãos públicos. Passado das 19 horas, um homem desorientado bateu em sua porta pedindo socorro. Depois de mais de três horas tentando auxílio em instâncias municipais e estaduais ela desistiu e decidiu fazer as coisas por conta própria. O marido pegou o carro e reconduziu o rapaz até sua casa, na periferia de Londrina. A Folha foi buscar uma explicação e descobriu que os pedidos de ajuda desse tipo aumentam até 30% nesta época do ano segundo o Sinal Verde, serviço em Londrina que aborda pessoas em situação de rua.
Silvia afirmou que o rapaz bateu em sua porta pouco depois das 19 horas procurando ajuda. Percebendo que o rapaz estava debilitado, cansado de caminhar e desorientado mentalmente, a professora decidiu oferecer comida e um abrigo até que conseguisse contatar algum órgão público que pudesse resolver seu problema, pelo menos naquela noite.
Com a Polícia Militar ela não teve sucesso. Na Civil, o policial se comoveu mas como era o único de plantão não poderia sair com a viatura. No Corpo de Bombeiros, ela foi orientada a procurar ajuda na Secretaria Municipal de Assistência Social. Ao ligar, a professora recebeu a promessa de que uma ambulância seria deslocada para prestar atendimento.
Depois de esperar por mais de uma hora, Silvia retornou a ligação e descobriu que a ajuda não seria mais possível. Ela, então, vistoriou os documentos do rapaz e descobriu que ele se chamava Benedito Carlos Pereira, tinha 38 anos, morava no Jardim União da Vitória I (Zona Sul de Londrina) e que havia sumido de casa havia dois dias.
''Meu marido pegou o carro, chamou um amigo e levou o rapaz de volta para a casa'', contou a professora. ''Procurei ajudar, fiz tudo com o maior prazer e não me arrependo de ter perdido compromissos por isso. O que mais me entristeceu foi a falta de cumplicidade, de compaixão e de apoio com o próximo que eu percebi'', desabafou.
Assistente social do Serviço Social de Ibiporã, Eliane Kono, afirmou que o plantão funciona até às 20 horas e que, depois disso, os casos devem ser repassados à Polícia Militar, ao Corpo de Bombeiros quando for situação de emergência ou a um pronto-socorro, que relata a situação à Secretaria Municipal de Assistência Social.
Em Londrina, a gerente do Projeto Sinal Verde, Sandra Coelho, explicou que o serviço e as abordagens de rua funcionam das 7 às 23 horas, sete dias por semana. Fora desse horário, quando a situação envolver menores de idade, o Conselho Tutelar deve ser acionado. No caso de adultos, a PM também pode orientar como fazer o encaminhamento para um abrigo.
''Londrina, nesta época do ano, é uma cidade que recebe muitas pessoas de fora que vêm pedir esmola ou fazer algum bico e não conseguem retornar'', lembrou Sandra, completando que a demanda neste período aumenta em cerca de 30%. Por dia, são pelo menos oito chamadas de solicitação de apoio ou encaminhamento.

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