Arquivo Folha/Paulo WolfgangConstrutivismoUma aula do Peart: método de alfabetização respeita o ambiente cultural do trabalhador e se adapta à sazonalidade do meio rural

O Projeto de Educação do Assalariado Rural Temporário (Peart), primeira iniciativa no Brasil voltada à alfabetização de bóias-frias, vai receber em abril um prêmio no valor de U$ 10 mil. O Ministério da Educação elegeu o Peart, entre mais de 100 concorrentes, como o melhor projeto de educação popular do País. A experiência também será apresentada em Havana (Cuba), durante o Congresso Internacional de Educadores, que acontecerá de 1º a 8 de fevereiro.
O coordenador do Peart, Durvalino Biliatto, diz que o projeto surgiu em 1990, com a finalidade de ser um trabalho alternativo na área de educação. Depois de um convênio com o Governo do Estado, firmado em 1992, o projeto cresceu e já foi implantado em 75 municípios do Estado. Só na região de Londrina até hoje foram alfabetizados 9 mil alunos. ‘‘A meta para 97 é que o Peart chegue a 90 municípios, atingindo algumas das áreas mais carentes do Paranᒒ, diz Biliatto.
Os números do Peart hoje não são nada modestos: 380 turmas, 4 mil alunos e 400 monitores, supervisores e agentes administrativos.
Mas, ao mesmo tempo em que o Peart é premiado e faz planos de expansão, também tem sofrido com a falta de recursos. A Secretaria Estadual de Educação (Seed) desde dezembro não faz o repasse de verbas previsto no convênio. Os funcionários estão sem pagamento. Contas de luz e água também estão atrasadas. O Governo, no entanto, garante que o pagamento sairá nos próximos dias.
O trabalho de alfabetização começou há pouco mais de seis anos, no então distrito londrinense de Tamarana. Foi uma experiência-piloto desenvolvida pelas Pastorais da Terra e dos Migrantes de Londrina, que tinham contato diário com os trabalhadores rurais da região. Com o sucesso da primeira turma, a experiência foi ampliada e chegou à zona rural de Bela Vista do Paraíso. Depois disso, multiplicou-se pelas regiões Norte e Noroeste do Estado.

Trabalho começou
em 1990, através
de Pastorais da
Terra e do Migrante


De acordo com uma das criadoras do Peart, a assessora pedagógica Martinha Clarete Dutra Biliatto, a idéia de formar as turmas de alfabetização partiu da necessidade de comunicação dos próprios bóias-frias. ‘‘Eles mesmos, no dia-a-dia, manifestaram interesse em aprender a ler.’’
Martinha observa que o segredo do Peart é o seu método. O Peart segue a linha educacional do sócio-construtivismo. É uma forma de ensino em que o aluno recebe elementos para construir o próprio conhecimento. ‘‘O trabalhador aprende a ler com monitores da sua comunidade, gente que ele conhece. Tem aulas na própria zona rural’’, explica Martinha Biliatto. Para ela, a singularidade do Peart é respeitar a formação e o ambiente cultural do aluno. Martinha define:
- É preciso trabalhar com referências que o aluno conheça. De que adianta mandar o aluno escrever Ivo viu a uva, se ele nunca experimentou uma uva na vida?
A linha didática do Peart também está adaptada a outra circunstância dos bóias-frias: a sazonalidade. Os monitores do projeto acompanham o trabalhador que, em busca das colheitas, fica meses distante do seu local de origem. ‘‘A sequência das aulas é bastante flexível, para respeitar essa necessidade econômica dos trabalhadores.’’
O resultado do método construtivista, segundo os organizadores do projeto, está na baixa evasão. Martinha Biliatto avalia: ‘‘Como existe um vínculo do aprendizado com a realidade cotidiana, os alunos se interessam pelas aulas e não abandonam o processo de alfabetização’’.
(Luka Morais e Paulo Briguet)

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