Florestópolis - Ao caminhar pelas ruas de Florestópolis (73 km ao norte de Londrina), qualquer pessoa consegue avistar, facilmente, grandes tambores de plástico em frente das residências. O objetivo? Acumular água da chuva para lavar a calçada e o quintal das casas. O hábito da população, resistente às mudanças, pode um dos responsáveis pela epidemia de dengue na cidade de 12 mil habitantes: 67 casos confirmados até ontem, 17 em menos de uma semana.
Somente ao longo da Rua José Truffa, localizada na Área Central, sete casos foram notificados. Valdice da Silva Leme, responsável pela Vigilância Sanitária do município, conta que, além dos inúmeros tambores, naquela rua também foi encontrado um foco com larvas do mosquito Aedes aedypti dentro de um barco que estava no quintal de uma casa. ''Três pessoas de uma mesma família ficaram doentes. A população é muito resistente e sempre deixa para mudar os hábitos depois que algum conhecido adquire a doença'', diz.
Agentes de saúde, carro fumacê, aplicação de veneno nas residências são ações que estão sendo realizadas diariamente na cidade. Mas todo o trabalho do poder público pode ser em vão se os moradores não mudarem hábitos como o da dona-de-casa Edite Carvalho, 51 anos. ''Meu marido deu um jeito para fazer com que a água possa descer da calha e cair direto no tambor, assim a gente consegue juntar mais água.'' Questionada sobre o risco daquele tambor se transformar num reservatório para o mosquito da dengue, ela diz estar tranquila: ''Não deixo muito tempo aí, já vou jogar para lavar a calçada'', argumenta.
O problema se repete em quase todas as residências. Além de não cobrirem os tambores, a maioria das pessoas não lava o recipiente, possibilitando a instalação de ovos na parede do tambor. Ainda debilitada por conta das dores intensas que sentiu na última semana, a dona-de-casa Adriana Alexandra Alves, 29 anos, continua acumulando água no seu quintal. Ela é uma das pessoas suspeitas de ter adquirido a doença, e confessa ter deixado vasilhas com água acumulada dentro de sua casa, por bastante tempo. ''Acho que eu peguei dengue aqui em casa mesmo. Eu deixava a vasilha de água da minha gata por muito tempo sem trocar'', comenta, acreditando que o tambor com água da chuva não traz nenhum risco à família.
Já o motorista José Bernardes, 32 anos, que não possui o mesmo hábito de Adriana, não conseguiu ''escapar'' do mosquito. Depois de receber a notícia de que realmente estava com dengue, Bernardes passou a pedir aos vizinhos mais cuidado. ''Eu tenho certeza que peguei dengue aqui na rua de casa mesmo. Aqui em casa não temos vasilhas e estamos sempre de olho. A dor que senti é horrível, tive até que ficar internado e estou há quase sete dias sem trabalhar'', comenta.
A coordenadora do setor de Epidemiologia e enfermeira de uma das Unidades Básicas de Saúde (UBS) da cidade, Enice Rosana Longhi, conta que ainda existem 150 casos suspeitos. Segundo ela, os casos começaram a surgir, principalmente, na primeira semana de fevereiro. ''As principais áreas atingidas são o Centro e o Jardim Jabur. No ano passado, a cidade não registrou nenhum caso. A população de Florestópolis costuma ir até o posto de saúde por conta de tudo. Por isso acreditamos que destes 150, pelo menos metade ainda deve ser confirmado'', salienta.
Enice disse também que a Saúde ainda não conseguiu mapear se há casos importados. Para ela, a possibilidade é mínima, porque a maioria dos moradores de Florestópolis trabalha em Porecatu, cidade que apresentou apenas um caso de dengue desde o começo do ano. ''O hábito dos moradores daqui é muito forte. Eles costumam guardar entulhos e não fazem questão de mudar. Hoje, por conta da epidemia, eles estão começando a se atentar mais, só que ainda é muito difícil'', diz.
Além de não ser asfaltada, a Rua Frei Caneca, do Jardim Jabur, é marcada pela grande quantidade de lixo e restos de veículos abandonados por todos os cantos. A agente de saúde, Adriana Malaquias diz que ''os moradores não fazem o que a gente pede''. ''Fomos na casa de uma moça que estava com dengue para fazer o bloqueio e quando voltamos, já havia vasilhas com água acumulada e o tambor para a água da chuva, tudo de novo'', lamenta.

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