Além de rainha, uma grande guerreira
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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Se você assistiu aos desfiles do Carnaval de Londrina deve ter parado o olhar, pelo menos por alguns segundos, em Claudia Maria de Souza, 25 anos, a rainha que esbanjou gingado e simpatia durante os dias de folia. O que quase ninguém sabe, porém, é que esta bela jovem de 1,73 metro ganha a vida com um trabalho que, como ela mesmo diz, não é para qualquer um. Duas ou três vezes por semana, Claudia passa as manhãs lavando túmulos, e garante que gosta do que faz.
''Não acho que seja um trabalho que me inferioriza. As pessoas costumam achar que por ser um trabalho braçal, quem faz não tem nenhuma preocupação com a intelectualidade'', dispara a falante Claudia. Ela é a prova de que por trás dos trabalhos considerados mais simples estão pessoas que pensam, têm sonhos e, acima de tudo, um grande entusiasmo pela vida. ''Quero ser alguém e deixar algo de bom para o futuro'', filosofa.
Filha de família humilde, de vários lavadores de túmulos - pai, mãe e irmãos - a Rainha do Carnaval se acostumou a agarrar as oportunidades que a vida lhe apresentou. ''Fiz dois anos de espanhol no colégio, porque acho importante falar outra língua. Agora estou começando a faculdade de pedagogia e vou fazer os cursos de administração e computação que ganhei como prêmio do concurso.'' Inquieta, não tem apenas o samba no pé. ''Já fiz dança do ventre, dança africana, dança de salão e participei de um coral.''
Claudia garante que não esperava conquistar o primeiro lugar do concurso promovido pela Secretaria Municipal de Cultura. ''Participei por insistência da minha irmã, e foi uma surpresa ganhar. Não imaginava que seria tão bom. Não imaginava, por exemplo, estar aqui dando esta entrevista. Este está sendo o meu momento, e tomara que ele me abra algumas portas. Se for assim, ótimo. Se não, vou continuar batalhando.''
Ela revela que parte do prêmio de R$ 1 mil que ganhou está sendo usado em emergências, como um tratamento de dentes. O restante, pretende guardar para os momentos de ''apavoramento''. Conseguir pagar a faculdade é uma de suas preocupações. ''Antes eu até conseguia ajudar um pouco em casa. Agora, mal vai dar para as minhas despesas.''
Claudia atende 30 famílias e cobra de R$ 10,00 a R$ 20,00 por faxina. Com isso consegue ganhar uma média de R$ 400,00 por mês. Deste valor, ela tem que subtrair R$ 70,00 do imposto como autônoma. O que sobra é gasto com a mensalidade da faculdade, transporte e pequenas despesas. ''Sempre consegui viver deste trabalho, mas estou começando a achar que preciso ganhar mais. De uns tempos para cá passei a ter uma preocupação maior com o futuro'', revela.
A decisão de fazer um curso superior é reflexo desta preocupação, e a escolha de pedagogia parece cair como uma luva em Claudia. ''Quero ser professora para garantir uma vida melhor para todos nós. Acho que a educação tem poder para mudar muita coisa. Sou idealista. Quero trabalhar e estudar para ser uma boa profissional e ajudar a construir cidadãos de bem'', reflete.
A ausência de preconceito em relação ao trabalho que realiza em dois cemitérios da cidade - definido por ela como de zeladora - ficou clara quando a rainha aceitou ser fotografada, com faixa e tudo, em meio às construções que abrigam restos mortais de londrinenses. E ainda brincou com o fotógrafo, que pedia uma pose mais imponente: ''Não estou acostumada. Antes eu era só a rainha dos cemitérios...''


