Alegria salva vidas no HU de Londrina
Projeto Heróis do Riso auxilia tratamento de crianças internadas no hospital
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de agosto de 2019
Projeto Heróis do Riso auxilia tratamento de crianças internadas no hospital
Laís Taine - Grupo Folha 

“66 dias”, respondeu Vanessa Aparecida de Souza, 25, mãe do Fernando, de dois, contando cada minuto de internação no HU (Hospital Universitário de Londrina). Mas na manhã daquele sábado (27), o tempo parou um pouquinho. Fernando, que tem síndrome nefrótica e não esquece de pedir para voltar para casa, se distraiu com as brincadeiras dos personagens do Heróis do Riso, projeto voluntário de terapia integrativa realizado em dois sábados por mês, no pátio do hospital.
“Sou servidora há 25 anos e por por nove fui ouvidora, eu ouvia os pacientes. Você vê que as pessoas ficam muito tristes com a internação. Quando inscrevi o projeto, convidei funcionários, estagiários e abri para quem quisesse participar de maneira voluntária”, conta a coordenadora do projeto Maria Aparecida Ramalho de Oliveira. O Heróis do Riso está em atividade desde janeiro de 2019 com o objetivo de levar alegria às crianças internadas como forma de terapia integrativa, que não substitui outros tipos de tratamentos.
Atualmente, o grupo é formado por cinco pessoas. A pedagoga Jaqueline Boettcher, 28, está desde o início e soube do projeto por uma amiga que trabalha no hospital. “Sempre participei de atividades que envolviam crianças, mas nunca em hospital. No começo foi difícil, porque você vê a criança querendo brincar, mas é impedida por alguma limitação, a gente acaba se comovendo”, comenta. “Mas, acima disso está saber que faz um bem muito grande para eles e para os pais, que ficam aliviados com a felicidade do filho”, acrescenta.

Foi o que aconteceu com Cristiano Melo dos Santos, 33, pai do Kauã, de dois, que está há duas semanas internado no hospital após cair e bater a cabeça. “Sinto que ele fica mais alegre, ele é bem quietinho, mas aqui fica mais conversador, está brincando mais”, comenta o pai. Para ele, é importante ter esse tipo de atividade disponível. “Ele fica melhor e eu estou achando divertindo”, sorri.
Segundo Luiza Moria, pediatra e diretora clínica do HU, a atividade vem como alento em momento bastante delicado dos pacientes. “A hospitalização é um processo altamente estressante. A criança, em seu pior momento de fragilidade, tem que lidar com pessoas estranhas, fora do cotidiano delas e é submetida a tratamentos dolorosos e assustadores”, explica.
HUMANIZAÇÃO
A diretora comenta que o hospital tem investido na humanização do atendimento e que vários projetos diferentes são executados com auxílio do trabalho de voluntários ou animais domésticos. “Existem situações em que a medicina não consegue atingir. O lúdico e o engraçado são elementos que fazem com que a criança se desvincule da situação de sofrimento”, afirma.
Os resultados são sentidos na prática pelos profissionais. “Percebemos que as crianças se tornam mais receptivas aos profissionais e passam a aceitar melhor os procedimentos”, afirma a pediatra. Com o trabalho, não só as crianças são envolvidas, mas os acompanhantes e a própria equipe de saúde, que na rotina do hospital também são afetados emocionalmente. “Então é uma terapia sistêmica”, defende a diretora.
Para a coordenadora do projeto, a atividade não se trata apenas de uma apresentação corriqueira, mas de um trabalho que exige comprometimento, com acompanhamento e avaliação dos resultados. “Não é só um passeio, nós fazemos pesquisa de satisfação, acompanhamos o desenvolvimento das atividades e percebemos que as crianças voltam mais tranquilas, dormem melhor e aceitam melhor a medicação”, revela Oliveira, mencionando que todos os voluntários passam por treinamento antes das ações.
Para Fernando e a mãe, que no dia da ação estavam há 66 dias internados no hospital, o projeto é um alento. Brincadeiras de estourar bolhas de sabão criam novos motivos para sorrir enquanto se espera a resposta de retorno para casa.

COMPARTILHANDO AFETOS
Márcia Ribeiro Lopes, 48, é a palhaça Doutora Sorridente nos trabalhos voluntários. Ela participa do projeto HU em Riso que troca experiência na ação com as crianças do Heróis do Riso. A vendedora está afastada do trabalho após passar por uma série de cirurgias, mas nunca abandonou o serviço voluntário. “Faço isso há oito anos. É muito gratificante. Levar alegria para outras pessoas funciona como uma terapia para mim”, afirma.
A experiência de vestir o personagem não é nova. “Como vendedora, eu me vestia de Galinha Pintadinha e outros personagens no supermercado para oferecer o meu produto. Eu sempre tive isso, de curar as pessoas, isso eu trouxe para o hospital”, comenta ela, que acredita que o trabalho impacta também os cuidadores e funcionários do hospital.
Isso porque ela passou pela experiência de ser acompanhante internada em hospital. “Eu ia com o meu marido, que passava por um tratamento e, às vezes, eu sentia falta de um abraço”, revela. Nesse ponto, entender o que se passa do outro lado é uma vantagem. “Não é só palhaçada, mas também doar um abraço e um colo”, afirma.
Participante de vários trabalhos voluntários, Lopes se sente bem em poder ajudar outras pessoas e não pretende parar. No hospital está há quatro meses e vê algo de especial. “O médico faz a parte biológica, a gente vem para a cura da alma e isso também reflete no físico”, sorri. Em busca de tratar o outro com riso, segue seu trabalho como Doutora Sorridente.
SERVIÇO - Interessados em participar do projeto pode entrar em contato por meio do telefone (43) 99993-8296.


