Depois de cinco dias levantando às 7 horas e só indo dormir à meia noite, o sábado e domingo são ansiosamente esperados pela bancária e estudante universitária para o merecido descanso. Naquele sábado não foi diferente. Acordou tarde, deu uma organizada no apartamento e passou a aguardar o motorista da concessionária de veículos onde o carro dela tinha sido deixado para revisão.
Por volta das 12 horas lá estava o motorista. Sorriso nos lábios, e educação à toda prova, ele abriu e fechou a porta do veículo para que a moça entrasse e se acomodasse no banco traseiro. Mal acelerou o carro e ele iniciou um bate-papo. Preocupada com o horário e com as coisas que ainda tinha que fazer – ir ao mercado e ao cabelereiro – ela nem queria muita conversa, mas foi respondendo às perguntas daquele senhor.
Até que de repente ele pergunta se ela tinha ido a um show, realizado no domingo anterior, na cidade de Londrina. Meia desconfiada ela disse que não. Indiferente à resposta ‘‘seca’’ da moça, o motorista continuou a falar que tinha ido ao tal show, não ‘‘apenas’’ para se divertir, mas também para trabalhar.
Curiosa, ela faz então a primeira pergunta.
- Trabalhar no show?
Ele, muito simpático e com olhar fixo no trânsito à sua frente, explicou que aproveitava as horas de folgas nos finais de semana para trabalhar, se divertir e, de quebra, ganhar um dinheirinho extra. No tal show realizado em Londrina como em muitos outros realizados em outras cidades e também em Maringá, ele trabalha vendendo água e refrigerantes. O trabalho lhe rende quantias variadas. Em Londrina por exemplo, ganhou R$ 120,00. Mas o melhor da atividade extra, conforme o motorista, era a oportunidade de conhecer pessoas diferentes, de fazer novas amizades. Naquele sábado, depois de deixar a bancária na concessionária e de encerrar o expediente na empresa, o motorista se preparava para assumir outra profissão. A partir das 14 horas iria trabalhar como entregador de flores. A atividade tinha sido iniciada uma semana antes.
- Este sim é um trabalho que eu tô gostando muito de fazer, afirmou o motorista com sorriso nos lábios.
A bancária quis saber os motivos de tanta satisfação e ele, sem pestanejar, declarou:
- Menina, é a coisa mais gostosa do mundo chegar com um buquê de flores nas mãos para entregar para as pessoas, porque a gente vê nos olhos delas, na expressão do rosto de cada mulher, jovem, mãe ou avó, a alegria de receber aquelas flores. Fico tão feliz quanto as pessoas que recebem as flores porque vejo a felicidade delas.
- Mas o senhor trabalha sábado, domingo e não tem nenhum dia para descansar?, insistiu a moça.
- Sábado, domingo, feriado, não tem diferença, o que importa mesmo é estar em contato com as pessoas, e não ficar em casa parado.
O percurso entre o apartamento e a concessionária parece ter encurtado naquele dia. A bancária, que mal aguentava esperar o final de semana para descansar e fazer sempre as mesmas coisas, e que vivia preocupada com as dívidas e com o trabalho, mal acreditava naquele depoimento. De volta para a casa, agora dirigindo o próprio carro, ela tentava se lembrar da última vez que tinha feito alguém feliz e quando havia sentido tanto prazer em viver.

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