''Eles vivem confinados em aldeias que mais parecem favelas.'' A sentença do ativista indígena e jornalista Alvaro Closs, 49, resume o que constatou após quase um ano percorrendo terras indígenas em todo o Paraná. Ciente, porém, de que só seu testemunho não bastaria para sensibilizar autoridades e sociedade civil, Closs registrou em vídeo e fotografia as mazelas sofridas pelas três etnias presentes no Estado: Kaingang, Guarani e Xetá.
Produzido entre janeiro e novembro do ano passado, o documentário ''Etnias Indígenas do Sul do Brasil'' foi enviado para ministérios, conselhos, associações e até ao gabinete da maior autoridade brasileira. Deste último, veio a resposta oficial: ''O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encarregou-nos de confirmar o recebimento de seu DVD e de informar sobre o encaminhamento ao setor competente para análise e eventuais providências.''
Enquanto tais providências não aparecem, Closs, atualmente em Londrina, vai tentando ampliar a divulgação das denúncias. Descendente dos índios Xocleng de Santa Catarina, ele passou um bom tempo vivendo na Amazônia e decidiu documentar a situação dos povos do sul devido à intensa degradação que atinge o meio em que vivem. ''Eu sabia das dificuldades, mas encontrei uma situação muito pior do que imaginava'', diz o ativista, ressaltando que ''só não entrou em depressão profunda'' porque precisava passar adiante o que viu.
Crianças doentes por questões higiênicas, famílias inteiras subnutridas e homens alcoolizados dormindo na sarjeta foram algumas das cenas que se repetiram nos 12 postos indígenas visitados por Closs. São problemas que parecem corriqueiros para moradores de áreas urbanas, mas completamente estranhos à realidade dos índios. ''Eles são muito ingênuos. Se você der uma caixa de veneno dizendo que é remédio, eles tomam. As crianças ficam cheias de feridas por nadar nos rios e as mães não têm consciência de que é por causa da poluição'', diz.
Relacionando os problemas de saúde à degradação ambiental, Closs inseriu no documentário imagens de máquinas aplicando venenos ao lado de terras indígenas e abatedouros cujos dejetos são lançados em mananciais. ''Eles (os índios) estão rodeados de latifúndios, monoculturas, plantações de soja que empesteiam todo o solo e comprometem a alimentação'', observa. A fome, aliás, é outra constante entre as famílias. Muitas não conseguem sequer manter lavouras de subsistência. Homens trabalham como bóias-frias e mulheres tentam comercializar cestarias. ''Encontrei uma que anda 16 quilômetros por dia para vender artesanato.''
A mendicância e o alcoolismo são outros destinos dos indígenas. Segundo o jornalista, muitos se embriagam com álcool combustível adquirido em postos. Acabam se tornando alvos ainda mais vulneráveis da violência - no documentário, um jovem aparece com o rosto inteiramente machucado e diz que apanhou de um grupo de cinco pessoas brancas. Closs também denuncia que em apenas uma das aldeias visitadas, a de Faxinal (região de Apucarana), havia um posto de saúde funcionando plenamente.
Para o ativista, a solução para tantos males tem de começar pela demarcação de territórios, ''que ainda não foi executada nem em 30% das áreas''. ''Se isso ocorresse, os índios teriam condição de se tornar uma sociedade autônoma e atender suas próprias demandas, uma vez que o Poder Público se mostrou incapaz'', argumenta, defendendo também o engajamento da sociedade civil. ''Você vê segmentos que se alinham com causas (de minorias) como mulheres, homossexuais, negros, mas raramente com índios. A causa indígena é a mais invisível do País.''

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