Aldeia SOS ampara órfãos em Goioerê
Sid Sauer
Até os 9 anos de idade, Sandra Regina Tomaz Rezende vivia pelas ruas de Goioerê (72 km a oeste de Campo Mourão). Ela, o pai e um irmão três anos mais novo, Odair José, dormiam pelas calçadas e comiam só quando conseguiam esmolas. Hoje, com 26 anos, Sandra é a responsável pelos transmissores da Rádio Goioerê e Odair é apresentador de um programa sertanejo todas as tardes na Rádio União, em Toledo (45 km a noroeste de Cascavel).
Os dois foram tirados das ruas pela Aldeia SOS de Goioerê, uma organização não-governamental que surgiu na Áustria após a Segunda Guerra Mundial e se espalhou pelo mundo. Em Goioerê, a aldeia tem 21 anos de fundação e ainda é a única do Paraná. O fundador, padre Luigi Depaoli, morto em abril de 1985, está enterrado na própria aldeia, que fica num sítio a poucos quilômetros do centro da cidade.
A aldeia mudou nossa vida, conta Sandra Regina. Ela perdeu a mãe quando tinha 3 anos e, junto com o irmão, passou a viver pelas ruas com o pai, que era andarilho. Adotada pela aldeia, ela ficou no local até os 16 anos, quando se casou. Hoje, ela tem uma filha de 9 anos e deve até o emprego à aldeia, uma vez que instituição é proprietária da Rádio Goioerê.
Odair José, casado e pai de uma menina de um ano, também deve o emprego à aldeia. Os dois irmãos chegaram a morar na delegacia de Goioerê até que alguma entidade os atendesse.
Histórias como a dos irmãos Sandra e Odair são comuns na Aldeia SOS. Em 1949, quando foi criada na Áustria, a intenção do fundador Hermann Gmeiner era dar abrigo aos órfãos da guerra e trabalho às mulheres que haviam perdido seus maridos e filhos nos conflitos. Cinquenta anos depois e com 15 aldeias pelo Brasil - a primeira surgiu em Porto Alegre, há 32 anos -, as crianças atendidas têm um perfil bem diferente.
Em geral, nossas crianças são órfãs sociais, diz o dirigente da Aldeia de Goioerê José Rodrigues Gonçalves, no cargo há 14 anos. A maioria das crianças chega ao local a pedido do Juizado de Menores. E quando chegam, raramente saem antes dos 18 anos. Não aceitamos adoções, explica Gonçalves.
Já houve casos, porém, da criança voltar para a família ou mesmo dos pais conseguirem na Justiça a volta dos filhos para casa. Mas não é isso que acontece na maioria das vezes. Segundo ele, a maioria das crianças que chega à aldeia está na chamada situação de risco. São filhos de prostitutas, de prisioneiros, de pais alcoólatras.
Uma das regras da institição é só aceitar crianças até 6 anos de idade. As mais velhas têm dificuldades de adaptação, diz Gonçalves. Apesar disso, o regulamento vive sendo quebrado. É que nós não separamos irmãos, explica o dirigente. É o caso dos irmãos Sandra Regina e Odair José. Ela já tinha 9 anos quando chegou à aldeia, mas foi aceita para ficar junto com o irmão. Nesses casos, colocamos o coração à frente do estatuto, frisa Gonçalves.
A Aldeia SOS de Goioerê tem 11 casas. Cada uma conta com uma mãe social que cuida, em média, de nove crianças. Hoje 94 crianças estão na instituição. As mães não podem ser casadas nem ter filhos menores de 18 anos. Por isso mesmo, a seleção é difícil. Elas contam com a ajuda das chamadas tias que são estagiárias e que podem se tornar mães. As tias assumem o cargo toda vez que alguma mãe social deixa a aldeia.Paraná tem uma unidade da entidade que foi criada na Áustria em 1949 para atender os órfãos da Segunda Guerra
Fotos: Marcos NegriniFundadorO dirigente José Rodrigues Gonçalves no túmulo do padre Luigi DepaoliVida novaAs famílias dos irmãos Sandra e Odair, que cresceram na aldeiaDesde 1979A mãe Maria do Socorro já criou 19 filhos na aldeiaVocaçãoMaria Andreola, ex-metalúrgica, com os filhos fazendo a tarefa





