Aldeia Infantil pede ajuda da população
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de outubro de 1997
Alexandre Sanches São Sebastião da Amoreira 
Dorico da SilvaPai e filhosPadre
Vitor
Margot e
parte
dos 64
adolescentes
e crianças
atendidos
pela Aldeia
Infantil
Estrela
do Amanhã:
uma grande
famíliaA direção da Aldeia Infantil Estrela do Amanhã, de São Sebastião da Amoreira (47 km ao sul de Cornélio Procópio), está fazendo campanha para arrecadar roupas, calçados, alimentos e dinheiro para manter o atendimento de 64 crianças e adolescentes que vivem na sede da instituição. A campanha foi divulgada em jornal por iniciativa de um funcionário, que publicou um pequeno anúncio no caderno de Classificados da Folha.
Criada há 23 anos, a Aldeia Infantil só foi regulamentada em estatuto há oito anos. Instalada num sítio de um alqueire, com cinco casas, instituição é administrada pelo seu fundador, padre belga Vitor Margot, 73 anos. Sem ajuda governamental, conta somente com doações voluntárias. Temos recebido poucas doações do Brasil e do exterior. Os nossos gastos são muitos, principalmente no atendimento médico, informa o padre.
O atendimento às crianças começou por acaso, em 1974, quando padre Vitor chegou na região como missionário para os japoneses. Eu vim para ficar em Assaí, mas como não havia padre em São Sebastião da Amoreira, fui designado para cá. Logo após assumir a paróquia, chegou a primeira criança trazida pela família, conta.
Nos meses seguintes, outras famílias bóias-frias procuraram a paróquia para deixar as crianças. A maioria tentar a vida em outras cidades e Estados. Depois de um tempo, quando a família consegue um emprego ou melhorar a situação da casa, vem buscar as crianças. Mas tem casos de crianças que foram deixadas comigo e casaram, concluiram curso superior, enfatiza.
Padre Vitor foi recebendo um número grande de crianças de outras cidades e Estados, a maioria filhos de migrantes. Com a casa paroquial ficando pequena para abrigar tantas crianças (nestes 23 anos pelo menos 500 crianças foram atendidas por ele), o padre pediu afastamento da função de pároco e passou a se dedicar à função de pai das crianças.
Dorico da SilvaHá crianças que
foram deixadas comigo,
casaram e concluíram
curso superior
Ele comprou um alqueire de terra e seguiu o exemplo da organização internacional Aldeia SOS, que funciona no sistema de casas-lares. Na propriedade o padre conseguiu construir cinco casas. Chamado de pai por todas as crianças, padre Vitor garante que todas vivem como uma grande família. Carinhoso, não dispensa atenção a nenhuma delas, nem para a pequena Natália, de um ano.
Atualmente as crianças são encaminhadas pelos Conselhos Tutelares. A Aldeia Infantil não funciona como orfanato, porque todas as crianças têm família. A coisa mais difícil é quando a família vem buscar alguma criança. Dói na gente e no menor que criou um laço afetivo. Mesmo distantes, elas ainda me ligam para contar como estão vivendo, comenta padre Vitor.
Como toda família, as crianças possuem uma vida normal. As que estão em idade escolar passam parte do dia na escola e a outra ajudando nos afazeres domésticos. As maiores cuidam das crianças menores. As menores são encaminhadas para a creche - mantida pelo padre juntamente com o Lar dos Idosos - onde passam parte do dia.
Padre Vitor tem o apoio de cinco funcionários e diz estar sofrendo de uma doença grave e sem cura: a velhice. Ele tem medo de um dia morrer e as crianças ficarem desamparadas. Recentemente, uma congregação católica assumiu a responsabilidade de administrar a Aldeia Infantil e se comprometeu a mandar dois padres para São Sebastião da Amoreira. Eles vão passar por um processo de adaptação. Afinal, eu sou o pai de muitas dessas crianças e não posso quebrar o vínculo familiar de uma hora para outra, desabafa.


