Álcool na pele é fogo
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terça-feira, 29 de abril de 2008
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Davi e o irmão Felipe estavam de saída para o trabalho, mas queriam tomar um cafezinho antes de partir. Davi, então, se propôs a esquentar a bebida, que já estava na caneca, sobre o fogão à lenha. Como o fogo demorou a pegar, Davi resolveu dar uma forcinha para as chamas, lançando álcool diretamente no fogaréu. Num segundo de descuido, a explosão, que queimou os membros inferiores do garoto de apenas 11 anos.
A história de Davi de Melo Viana é mais comum do que se pode imaginar. Sessenta a 70% dos casos atendidos no Centro de Queimados do Hospital Universitário (HU) de Londrina estão relacionados a acidentes com álcool ou gasolina, e 70% dos pacientes são adultos, como afirmou o cirurgião plástico Reinaldo Kuwahara.
O próprio irmão de Davi, Felipe de Melo Viana, 18, que veio de Nova Londrina (110 km ao norte de Paranavaí) só para ficar com o irmão enquanto ele se recupera das queimaduras, também já havia se queimado, da mesma forma, quando tinha a idade de Davi. ''Só que no meu caso foi apenas uma tampinha de álcool que queimou meu braço. Na época nem fui ao médico'', recordou Felipe, garantindo que depois do episódio, nunca mais ''brincou'' com fogo.
Já o caso de uma dona de casa londrinense, que não teve o nome divulgado pelo hospital, foi mais grave. Conforme Kuwahara, uma simples alergia alimentar foi a causa do acidente. ''Ela estava com alergia e resolveu passar álcool sobre o corpo para aliviar a coceira. Foi preparar um café para o marido e teve 70% do corpo queimado'', relatou.
Conforme Kuwahara, uma campanha nacional realizada pela classe médica junto ao Ministério da Saúde defende a comercialização e o uso do álcool em gel, em substituição à versão líquida. Ele lembrou que desde agosto de 2002 está proibida a venda de álcool líquido 96º GL, mas um agravo de instrumento impetrado junto ao Tribunal Regional Federal da 1 Região (Brasília) permitiu que as indústrias afiliadas à Associação Brasileira de Produtores e Envasadores de Álcool (Abraspea) comercializassem o produto, repassando-o a supermercadistas e outros comerciantes.
''A versão líquida deveria ser usada somente para limpeza, enquanto o gel serviria para atear fogo, como acender churrasqueiras. O gel não explode como o líquido e o risco de acidentes é menor'', disse Kuwahara, informando que a incidência de queimaduras por álcool em crianças é significativa. ''Crianças costumam imitar os adultos ou ficar próximos do fogo, por isso se queimam, e neste caso a queimadura é mais grave.''
Segundo o cirurgião, são dois os principais riscos causados por queimaduras: infecção e comprometimento das vias aéreas. A recomendação em caso de queimaduras é para, se possível, esfriar o local com água corrente e cobrir a pessoa para evitar perda de temperatura. Em seguida, encaminhá-lo ao pronto socorro ou hospital mais próximo.
Utilizar pomadas, pasta de dente ou qualquer outra substância só complica o trabalho dos médicos, que precisarão limpar toda a área atingida antes de aplicar os curativos. ''Em caso de dúvida, nem passe água corrente'', ensinou Kuwahara.
Acidentes domésticos como escaldaduras com óleo, água fervendo, leite ou uso da panela de pressão e tentativas de suicídio completam a lista de casos do Centro de Queimados. A ala tem capacidade para atender dez pacientes de enfermaria e possui seis unidades de terapia intensiva. Segundo Kuwahara, o centro trabalha sempre com 80% da capacidade, pois uma área é destinada a pacientes queimados infectados e hoje, a maior parte dos pacientes vem do Oeste, principalmente Cascavel e Foz do Iguaçu.


