Álcool é porta de entrada para outras drogas
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de outubro de 2007
<br> Caroline Vicentini<br> Reportagem Local 
Agentes públicos e comunitários, que atuam com a população usuária de álcool e de outras drogas em Londrina, reuniram-se ontem para avaliar a conjuntura municipal e traçar políticas públicas visando ao tratamento, prevenção e reinserção social dos usuários de drogas para os próximos dois anos. Estes foram os principais objetivos da 3 Conferência Municipal de Políticas Públicas sobre Álcool e Outras Drogas. O evento foi promovido pela Secretaria Municipal de Saúde, por meio do Conselho Municipal de Políticas sobre álcool e outras drogas (Comad).
Segundo a presidente da Comad, Vera Lúcia Feliciano Lopes, o Município não possui estatísticas oficiais sobre o panorama das drogas, mas em sua convivência diária com usuários que procuram apoio, é crescente o ingresso de crianças e adolescentes neste universo, sendo o álcool a porta de entrada para drogas mais pesadas. ''Outra percepção assustadora é que aumentou e muito o consumo de crack pelos adolescentes. Eles chegam desesperados dizendo que estão 'se matando no crack' '', revela.
De acordo com Vera, o objetivo do Comad nos dois últimos biênios (o órgão existe desde 2002) foi estruturar as instituições que prestam serviço ao Município no atendimento aos usuários. Atualmente, o Município subvenciona seis entidades que oferecem as modalidades auto-ajuda, grupos de apoio, internação, internação-dia, ambulatorial e reinserção social. Juntas, as instituições realizam mais de 4.500 atendimentos/mês. Londrina oferece 300 vagas para atendimento ambulatorial. ''Apesar da demanda crescente, o usuário encontra apoio em Londrina'', garante.
Conforme a presidente do Comad, as metas para os próximos anos são capacitar os profissionais dos hospitais e unidades de saúde no atendimento aos usuários e aumentar a verba do Fundo Municipal de Políticas Públicas Sobre Álcool e Outras Drogas, objetivando a realização de campanhas de prevenção nas escolas. O valor destinado ao Fundo este ano, via Secretaria de Governo, foi de cerca de R$ 400 mil.
Com o tema ''Drogas: o afeto pode mudar esta história'', o evento frisou a necessidade da atenção e do carinho dos familiares e amigos na recuperação e retorno ao convívio social dos usuários de álcool e outras drogas. Segundo o psicoterapeuta Ivan Roberto Capelatto, um dos palestrantes convidados para o evento, uma pesquisa informal realizada em escolas de São Paulo e Sul de Minas revelou que oito em cada 10 crianças já haviam entrado em contato com álcool e outras drogas''. ''E isso ocorre cada vez mais cedo, por volta dos sete anos, independentemente da classe social. O perigoso é que drogar-se virou modismo'', alerta. A causa, ressalta o especialista, é que o homem deixou de ser um animal afetivo para ser um animal econômico, que valoriza o ter e o prazer a qualquer custo. ''As pessoas estão com uma idéia complicada de libertação. Quando os filhos se aventuram nas drogas é para chamar a atenção'', complementa. Capelatto orienta que a prevenção às drogas baseia-se em afeto, presença dos pais e limites. ''O cuidar é barulhento. Os pais devem suportar e considerar um comportamento normal do filho quando ele grita, xinga'', assinala.
Recuperação- Primeiro foi o ácido. Logo ele passou para a maconha, cocaína e anfetaminas. Durante 23 anos o vendedor Nilson Roberto, 48, viveu no submundo das drogas. O que começou como curiosidade, resultou na perda de amigos, emprego e família. Foram três internamentos, crises terríveis de abstinência e, em 2003, o fundo do poço - a prisão por tráfico e associação para o tráfico. ''Sempre procurei drogas de qualidade. Na cadeia, elas chegavam de forma anti-higiênica e isso me ojerizou. Somente na prisão percebi o real sofrimento da minha família'', revela.
Em liberdade desde 2006, e há 3 anos e 10 meses ''limpo'', Roberto busca reconstruir a vida ao lado da esposa e da filha. ''O drogadicto é um doente espiritual. O caminho da recuperação começa com o reconhecimento da doença para pedir ajuda'', finaliza.


