Albertina cai em tentação diante de um pedaço de carne
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quarta-feira, 12 de junho de 2002
Luka Morais<br>Reportagem Local 
A senhora deve me acompanhar até o fundo da loja.
O coração de Albertina disparou. As pernas amoleceram. A mulher, de quase 30 anos, pensou que ia desmaiar. Aquele sábado vai ficar na lembrança da doméstica. A voz daquele homem alto e forte soou como a sentença de morte. Tina, como é chamada pelas amigas e familiares preferia ter morrido a enfrentar situação tão vergonhosa.
Era pouco mais das cinco da tarde quando ela voltava para casa, depois de fazer a faxina na casa da dona Rita, no centro da cidade. O apartamento era cheio de arranjos, que Tina gostava de manusear, imaginando ter um deles enfeitando seu barraco.
A faxineira também gastava tempo observando os detalhes dos quartos das crianças da patroa, pensando que um dia seus rebentos também se acomodariam em móveis parecidos. Chegava a ver o brilho nos olhos do filho caçula diante de tantos brinquedos.
Na sexta-feira, um dia antes de fazer a faxina no apartamento de dona Rita, Tina precisou encontrar forças para suportar o marido, o Armando, que chegou de cara cheia. O homem, que costumava voltar cedo para casa, trazendo a mistura para jantar com a família, naquele dia demorou um pouco mais. Tina e as crianças enganaram o estômago com um pedaço de pão, aquecido com óleo. Ouviu reclamação e prometeu que, no dia seguinte, iam comer uma mistura.
Ao notar os olhos vermelhos do marido e o cheiro de pinga, Tina ficou preocupada. Armando tentou justificar a situação e acabou revelando o motivo da bebedeira: tinha sido demitido. Desesperada, a mulher se controlou diante das crianças.
- Tem nada não. Amanhã a mãe faz a faxina, pega o dinheiro e compra uma carninha bem gostosa para vocês.
Naquela noite Tina não conseguiu dormir. O que ganhava como diarista mal dava para pagar as contas de água e luz. E comprar o leite e pão durante a semana.
No sábado, saiu cedo de casa, deixando um chá ralo e umas bolachas sobre a mesa. Nervosa, trabalhou com a cara amarrada. A patroa só esperou a diarista terminar a faxina para anunciar a dispensa, alegando que precisava dar uma reduzida nas despesas da casa.
Tina pegou o dinheiro da diária e foi até o supermercado. Com a cestinha na mão comprou arroz, feijão, óleo e leite. Passou pelo balcão de carnes e ficou olhando aquele pedaço de carne. A tão esperada mistura...
Sem pensar muito decidiu esconder o pacote na bolsa. Sabia que o dinheiro não seria suficiente para pagar a mistura. Tremia e tentava disfarçar. Foi até o caixa, pagou os outros produtos e, ao deixar o supermercado, foi barrada pelo segurança.
Tina nem tentou se justificar. Abriu a bolsa, arrancou o pedaço de carne e começou a chorar. Um choro doído que ecoou pelo supermercado, atraindo a atenção dos consumidores. A mulher foi liberada pelo segurança. Seguiu de cabeça baixa ao encontro dos filhos, que aguardavam a mistura, e do marido, também desempregado.


