Ajustando o relógio biológico
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sábado, 15 de fevereiro de 2014
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Londrina - Ao contrário dos ponteiros dos relógios, nosso organismo precisa de tempo para se acostumar com o fim do horário de verão, que acontece à 0 hora deste domingo. Com a mudança, é preciso atrasar os relógios em uma hora. Na teoria, isso é muito simples. Porém, na prática "é difícil porque o corpo já estava acostumado a levantar mais cedo. Eu não estava nem usando despertador mais", completa Erli Amaral, que trabalha em uma lanchonete no centro de Londrina.
Ela e a colega de trabalho Marcenina de Souza, acordam às 5 horas e batem o cartão às 6h15. "Eu gostaria que o horário de verão fosse mantido. O serviço rende mais, é mais seguro na hora de ir embora e quando chego em casa ainda dá tempo de colocar uma roupa no varal", declara Marcenina.
Ao todo, moradores de 10 estados brasileiros, além do Distrito Federal, tiveram que se adaptar aos dias "mais longos" durante 119 dias. E não é a toa que muitas pessoas sofram com as mudanças no relógio biológico. Especialistas apontam que pode haver alterações no sono, causando também irritabilidade, estresse e baixa produtividade. Além disso, é comum nos primeiros dias da mudança encontrar pessoas se queixando de cansaço, fraqueza e dores pelo corpo e até alterações no apetite e queda da imunidade.
O neurologista Cleverson de Macedo Gracia, do Hospital Nossa Senhora das Graças, de Curitiba, explica que "nosso organismo tem o ciclo circadiano, que é o período de 24 horas e é influenciado pela luz solar. Este relógio biológico encontra-se no núcleo supraquiasmático do hipotálamo, uma estrutura nas profundidades do cérebro".
De acordo com ele, as mudanças para leste são piores do que para o oeste. "Quando você adianta o relógio é pior do que quando você atrasa. A razão disto é que nós estamos mais propensos a ficar mais tempo acordados à noite que ter que acordar mais cedo no dia seguinte. Como se fosse a favor e contra o relógio biológico", completa.
Diante de toda essa mudança, os idosos e as crianças sentem mais dificuldade de adaptação, mas o especialista afirma que na variação de uma hora os sintomas tendem a se resolver rapidamente em dois a três dias. "Pessoas que percebem esses sintomas devem parar o que estão fazendo (se possível), tirar um cochilo acima de 45 minutos. Cafeína, exercícios e convívio social ajudam a resolver o problema também", indica.
Para o sorveteiro Valdecir Roberto de Jesus, "economia" definitivamente não faz parte do dia a dia quando o assunto é horário de verão. "Eu vendo mais porque o sol fica até mais tarde e o trabalho rende, ainda mais com esse calor dos últimos tempos", comemora. Mas quando a questão não é trabalho, Valdecir confessa que voltar ao horário normal é muito bom. "A gente volta a acordar no horário certo e no final da tarde já está escuro e mais fresco. É melhor para descansar."
Satisfação
Seis décadas se passaram desde que o "relojão" surgiu no céu de Londrina. Em vários pontos da cidade é possível avistá-lo marcando o tempo e registrando uma certa simbologia aos londrinenses. Há 42 anos cuidando da manutenção do equipamento, o relojoeiro Ueda Tetsuo, de 77 anos, é o responsável em alterar os ponteiros no início e fim do horário de verão.
"Ih, já até perdi as contas quantas vezes fiz isso", diz em tom de brincadeira. Um fato curioso é que como o horário de verão acontece sempre no final de semana e o maquinário fica em uma sala comercial, Tetsuo precisa esperar até segunda-feira para ajustá-lo. "Então, sempre arrumo com um pouco de atraso", revela, em tom descontraído.
Muito mais que um trabalho remunerado, Tetsuo encara a "tarefa" de manter a vida do relógio como um ato de doação. "Acho que até hoje só eu e meu filho sabemos como manuseá-lo e a gente faz por prazer."


