Cerca de 4,5 mil famílias londrinenses passaram a ter uma preocupação a menos para fechar as contas do orçamento doméstico este mês. Pela primeira vez, elas experimentaram os benefícios do Luz Fraterna, programa do governo do Estado que concede tarifa zero a consumidores pobres.
Para essas pessoas, é hora dos cálculos para descobrir qual destinação dar ao montante poupado. A Folha foi ao União da Vitória, bairro carente da zona sul, saber os planos de alguns destes isentos. Para participar do programa é preciso gastar um máximo de 100 kwh, ter um dos cartões dos programas sociais do governo federal (vale-gás, bolsa-escola e bolsa-alimentação ou seja ter uma renda familiar média de até meio-salário mínimo per capita) ou estar no cadastro social da Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel). A Copel também avalia o padrão de moradia para ver se é compatível com esses critérios.
A doméstica desempregada Alice de Lima, 42 anos, não conhece detalhes do programa. Sabe apenas que está no cadastro social da Copel e que ''deve ser por isso'' que ''não teve que pagar a conta''. Se comportando como a verdadeira chefe da casa, foi ela quem tomou a iniciativa de procurar o benefício da Companhia para os clientes pobres. ''Se não fosse por mim...'' Na casa vivem também o marido, o servente de pedreiro Moisés Alves, 38 anos, e a sobrinha Natália, de 4 anos.
Alice faz tratamento permanente contra uma disfunção no sistema nervoso. Toma medicamentos de tarja preta e pretende usar o dinheiro da luz para comprar a caixa de comprimidos que consome mensalmente. Este ano, o valor médio das faturas que ela recebe é de R$ 13,00. ''É justamente o valor do remédio'', observa.
Os netos de 10 e 15 anos da aposentada Carmem Gonçalo Piauí, de 73 anos, serão os grandes beneficiados com a ''forcinha'' do governo do Estado. ''Vou comprar roupa para eles'', diz a senhora, que se recupera de uma internação hospitalar decorrente de uma pneumonia. Carmem, uma ex-lavradora que colheu uva e algodão, mostra o valor de suas faturas antes do Luz Fraterna. Variava de R$ 15 a 20,00. ''Sou econômica'', garante, defendendo o mérito de ter este novo direito. A aposentada também tem subsídio para o consumo de outra fonte energética, o vale-gás.
O tempo está nublado e a casa baixa de Doralice Arcelino dos Santos, 31 anos, está tomada por uma penumbra. Seu marido João Batista da Silva, 38 anos, que faz serviços gerais para uma terceirizada da Prefeitura, está trabalhando. O hábito de evitar o interruptor persistiu mesmo depois do benefício. ''Minha conta já foi de R$ 8,00''.
Sem este gasto, a doméstica desempregada também planeja atender os pedidos dos filhos de 13 e 11 anos (é graças a eles e ao benefício do Bolsa-Escola federal que Doralice conseguiu entrar na lista do Luz Fraterna). ''Sei lá. Acho que vou comprar bolacha, iogurte, essas coisas'', conta, explicando a destinação do dinheiro que antes pagava a conta de luz.
O motorista de ônibus Antonio Tertulino Ferreira, 41 anos, não quer dar detalhes do que vai fazer com o bônus no orçamento doméstico. ''Vou gastar no supermercado''. Pai de dois filhos adolescentes, Ferreira diz que sempre foi econômico e que considera a Luz Fraterna ''uma boa idéia''.
De acordo com o governo estadual que pagará a conta e remeterá para cada residência a fatura com o valor quitado o programa deve significar um gasto anual entre R$ 24 e 30 milhões, beneficiando 200 mil famílias paranaenses (ou 700 mil pessoas). No lançamento, o governador Roberto Requião considerou o programa ''um importante mecanismo de distribuição de renda''.
O Luz Fraterna beneficia consumidores residenciais monofásicos, rurais monofásicos e rurais bifásicos de até 50 ampéres. Mais informações sobre o programa podem ser obtidas pelo telefone 0800 643 5445.

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