Josoé de CarvalhoMãe e filhoCarolina Maria e Francisco de Oliveira: família tem medo de que ele volte a furtar, seja preso e morraFrancisco de Oliveira, 40 anos, tornou-se um grave problema para a sua família depois que foi preso na quinta-feira da semana passada. Ele havia furtado dois sapatos e um CD no centro da Cidade. Francisco sofre de Aids em estágio terminal e adquiriu a doença por usar droga injetável. ‘‘A nossa tragédia já não é mais pela doença que o Chico pegou, mas pelo furto que ele praticou. Meu filho não está mais agindo com a razão. Esquece de tudo e tem um comportamento estranho, parece que não sabe o que está fazendo’’, diz a mãe de Francisco, Carolina Maria de Oliveira, 71 anos, viúva. ‘‘A lucidez do Chico está acabando. Tenho medo que ele seja preso novamente, e nós não temos de onde tirar mais dinheiro para pagar sua fiança.’’
Para libertar Francisco, foi paga uma fiança de R$ 200,00, mais a taxa de cartório (R$ 50,00). Os familiares precisaram se cotizar.
‘‘Se for preso de novo, não tem mais fiança. Ele não vai poder tomar o coquetel de remédios contra a Aids. Vai morrer em seguida’’, afirmou a irmã, Maria Aparecida de Oliveira. Ela contou que, há menos de um mês, o irmão não andava por causa da fraqueza. Com o coquetel, ele se reanimou e chegou a engordar uns quilos. O medicamento foi obtido por intermédio de amigos da família. Durante os dois dias em que ficou preso, sem tomar o rémedio, Francisco teve uma recaida e voltou para casa carregado no colo.
Francisco conta que seus amigos de infância, na maioria, morreram de Aids e não chegaram a completar 35 anos. ‘‘Eu tinha uma turma de amigos que aos poucos foram morrendo. Somente eu e mais uns quatro não morremos porque conseguimos tomar esse coquetel de remédios que nos segura um pouco’’, disse Francisco à Folha. Durante a entrevista ele pediu dinheiro a um amigo da família: quer comprar ingredientes para fazer cocadas e vender. ‘‘Tenho experiência em fazer os doces. Assim vou poder ganhar o meu dinheiro e não explorar mais minha mãe.’’ Mas a família acha que o dinheiro seria usado para comprar drogas.
Francisco atualmente reside na rua Flor de Jesus, nas proximidades da vila Santa Terezinha (área central). É o lugar em que mais existem pontos de venda de tóxico em Londrina.
‘‘Os traficantes acompanhavam a família por onde a gente ia e batiam em nossa porta para oferecer droga’’, diz Carolina. Outro conhecido da família, que pediu para não ser identificado, disse que os traficantes do bairro ainda procuram o doente. ‘‘Eu acho que esses miseráveis não estão satisfeitos com o que fizeram. À noite eles vêm até a casa e entregam uns pacotinhos para o Chico.’’
Segundo o parente, não adianta chamar a polícia: os traficantes aparecem e desaparecem rapidamente. A família acha que atualmente os traficantes não cobram nada pela droga que entregam a Francisco. ‘‘É uma solidariedade macabra, para compensar o estrago que fizeram nele’’, diz a irmã.
A mãe contou que recentemente bateu no filho, depois que lhe perguntaram na rua porque não havia dado melhor educação. Quando chegou em casa, deu tapas nos ombros de Francisco. ‘‘Lógico, ele não entendeu nada. Só perguntou: ‘O que é isso, mãe?’ Eu me arrependi. Ele só merece carinho, principalmente sabendo que pode morrer a qualquer momento.’’

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